terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Artigo | “O agente secreto”: um espelho onde encontrar boa parte da nossa história

Por Geralda Cunha* “Uma boa história, ela pode ser brutal e pode ser cheia de amor e afeição.” Kleber Mendonça Filho Deve ser normal assistir a um filme e se ver representada nele, através de seu enredo, dos cenários, figurinos, dos personagens, principalmente quando o filme, uma ficção, é permeado pela história recente brasileira. Agora não deve ser comum, identificar nos personagens fictícios, histórias vividas por pessoas que você conheceu, conviveu durante um tempo de sua vida, ou deve ser mais do que comum, vai saber! A história de Kleber se passa em 1977, em pleno período da ditadura militar, na cidade do Recife, em Pernambuco. A direção de arte e figurinos fizeram um trabalho impecável, com a gente identificando um Brasil da nossa infância através dos carros, dos prédios, das vestimentas das pessoas, das representações das festas, como o carnaval, das músicas que eram sucesso à época. Mas apesar disso, eu fiquei impactada mesmo foi com as especificidades das situações (cenas) e tramas criadas nos ambientes que remetem à cultura policial, com a naturalização da violência cotidiana, através dos modus operandi dos policiais e também de como a população periférica lidava com o desprezo do Estado pela vida. Como as pessoas eram convencidas que as fatalidades eram normais e vida que segue! E por que tais cenas me impactaram? Bem, eu, goiana, nascida em 1965, vivi toda a minha infância no período da ditadura militar. Falar de política em casa, na rua era algo impensável. Fui admitida no Colégio Estadual Pedro Gomes, conhecido por ter sofrido dura repressão da polícia e por ter alunos presos, mortos, como perseguidos políticos. E quando entrei para o ensino médio em 1980, o Colégio guardava muitos segredos, seus servidores mais antigos, se negavam a falar sobre as perseguições e o que eles presenciaram no final da década de 60. A história deste período veio para nós em recortes. Histórias contadas a boca miúda, livros ainda proibidos e a gente com uma vontade danada de entender o que se passara naqueles corredores. Quem eram os perseguidos? Quem eram os “alcaguetas”? Onde estavam os desaparecidos políticos? Em quais condições estudantes presos, foram encontrados mortos? Como a família teve acesso aos corpos? Ainda que começássemos a respirar ares da “Nova República”, com eleições municipais e estaduais para os cargos executivos e parlamentares, o medo pairava no ar! Concluí o Ensino Médio com uma pequena bibliografia sobre este período da ditadura militar e fui aprovada no vestibular de uma universidade privada – a Universidade Católica de Goiás, hoje PUC. Para custeá-la, eu precisava trabalhar, não tinha outra alternativa. Meus pais não tinham condições de bancar meus estudos e de mais duas irmãs! Foi neste contexto que eu, uma jovem ingênua, trazendo na bagagem alguma leitura sobre o período da ditadura, me deparo com os primeiros textos xerofotocopiados de Marilena Chauí e Paulo Freire, me introduzindo no mundo da filosofia e da política. O meu primeiro ano de faculdade também foi o ano mais desafiador, porque precisava trabalhar para poder custear os meus estudos. Eis que surge um edital para concurso na Polícia Civil de Goiás. Era a única alternativa que tinha. Receosa, me inscrevi e fui, etapa por etapa, avançando, até ser aprovada e tomar posse no ano de 1984, aos 19 anos, em uma delegacia de polícia! E o banho de realidade que tomei, me impactou por toda a minha vida! Assistir ao filme “O agente secreto” me transportou para o período em que iniciei a minha carreira como policial e vivenciei muito intensamente uma realidade que eu desconhecia: salinhas com aparelho de choque elétrico e pau de arara, como métodos de investigação; o famoso porte de arma era fornecido pela delegacia de controle de armas e munições; delegados de polícia “calça curta”, aqueles sem conhecimentos técnicos, indicados por algum político, com super poderes; uma relação intensa entre polícia e o submundo do crime, que ia muito além da figura da autoridade e do “fora da lei”, não era incomum a gente ter dificuldades para saber quem de fato era o bandido! Sim, eu vivenciei histórias e plantões em noites de carnaval, que o chamado para uma ocorrência policial, interrompia a festa do delegado chefe, que chegava irritado no local do crime, com resquícios das noitadas carnavalescas, restos de batons na pele, confetes pelo corpo, roupas amassadas e molhadas de suor e muito bafo de álcool! Os encontros nas salas da delegacia entre pessoas conhecidas que dominavam o crime local e policiais que recebiam no final do dia os “arregos”, dando cobertura para os pequenos furtos nas linhas de ônibus, nos pequenos comércios, para que as prostitutas pudessem trabalhar sem serem incomodadas, enfim… era um período em que os métodos da ditadura, colaboraram para que existisse na polícia uma cultura de permissividade e da estruturação de métodos próprios, à margem do que estava previsto em lei. Os melhores policiais, eram aqueles considerados os mais violentos: os mais corajosos e que transitavam por todos os lugares sempre acompanhados de seus fieis escudeiros. Onde chegavam eram recepcionados com cerimônias, e muitos privilégios. De forma que os espaços por eles freqüentados, tinham sempre uma segurança extra! Eles podiam tudo e quem os acolhiam tinham proteção diferenciada. A cena do corpo no chão, coberto por um jornal e já em estado de putrefação, parece algo irreal e de fato fictício, mas de novo, minha memória trouxe lembranças de muitos momentos vividos, estando do outro lado da linha telefônica, em uma delegacia ou mesmo no IML. Por motivos vários, corpos ficavam expostos, à espera das autoridades policiais que por falta de equipamentos, de pessoal, ou mesmo por negligência demoravam uma eternidade para chegarem no local do crime e proceder ao trabalho de perícia e recolhimento do corpo. Cenas tão comuns que a própria população, como o frentista do filme, via como normal, em que pese o personagem do agente secreto ter se assustado. A identificação com o filme é imediata. Kleber foi genial e conseguiu nos afetar, nos fez sentir parte da história, das situações cotidianas, tragicômicas tão nossas, tão brasileiras. Situações retratadas no filme, que cabem nas histórias de cada um de nós. Surpreendente foi também o desfecho do filme, quando a pesquisadora preocupada em preservar os documentos e a memória referentes ao professor, procura seu filho, um jovem médico, e encontra uma pessoa amável, mas distante da história vivida pelo seu pai. Fica claro então que o vínculo com o passado e o pai se restringia à lembrança de ter esperado pelo pai e ele não aparecer para buscá-lo. Seguia a vida, praticando o seu ofício sem a pretensão de fazer justiça e resguardar a memória dos seus entes queridos! Quando Wagner Moura, ao receber o troféu Globo de Ouro por seu trabalho em “O agente secreto”, diz: “Se traumas podem ser passados entre gerações valores também podem”, ele dá a verdadeira dimensão de como a vida é. Muita gente que hoje, órfã da ditadura militar, desconhece a história e o papel de seus pais é porque este direito foi tirado deles. Há uma lacuna grande entre o período da ditadura e a abertura política, muita coisa não foi esclarecida e muitos desaparecidos se tornaram assassinos de si próprios. A falta de reparação e contextualização histórico-política ainda hoje faz muitos acreditarem que os militares e a ditadura foram necessárias e contribuíram para o desenvolvimento do país. “O Agente Secreto”, assim como “Ainda estou aqui” são filmes que expõem de forma simples, mas compreensível, a tragédia que este período provocou no país em todos os aspectos, inclusive na vida e na formação das gerações pós-ditadura militar. São abordagens necessárias, atuais, que ajudam a abrir a cabeça das pessoas sobre um período difícil e pouco conhecido por boa parte dos brasileiros e brasileiras. Parafraseando Wagner Moura, precisamos de mais filmes sobre a ditadura, para conhecermos nossa história, sem meios termos, sem meias verdades! Conhece-la, fazer memória, não esquecer para não repeti-la! * Para a Agência Informativa Pulsar Brasil https://agenciapulsarbrasil.org/artigo-o-agente-secreto-um-espelho-onde-encontrar-boa-parte-da-nossa-historia/

sexta-feira, 16 de maio de 2025

“Adolescência” e a des (construção) da identidade

“Adolescência” e a des (construção) da identidade Por Geralda Cunha* A notícia recente de que uma criança de 08 anos morreu depois de participar de um desafio pela internet, inalando desodorante, veio somar a uma onda crescente de casos envolvendo crianças e adolescentes inseridas no mundo virtual, que terminam de forma trágica. Lidar com a vida real Certamente isto explica o sucesso da minissérie britânica da Netflix, Adolescência. Em quatro capítulos a história de um típico adolescente, que se vê envolvido na morte de uma colega de escola, desnuda características dos adolescentes, já conhecidas da nossa sociedade: Todos conectados no mundo virtual, geralmente trancados em seus quartos, envoltos em jogos eletrônicos por horas; dificuldades de lidarem com a vida real; não lidam com frustrações; envoltos em casos de bullying, misógina e atitudes que não prevê o respeito ao outro; geralmente são crianças e adolescentes com pouca ou nenhuma convivência social. Os pais, costumeiramente se vêem absorvidos com o trabalho e enxergam a realidade dos filhos trancados nos quartos com um celular ou um computador, como uma forma de protegê-los dos perigos externos. O sentido da vida O avanço tecnológico e as mudanças sociais do mundo pós-moderno em que estamos inseridos são aspectos explorados por dois estudiosos, que tentam explicar o modo de vida das pessoas e em especial dos adolescentes. O alemão Siegfried Kracauer, já no início da década de 1920, chamava a atenção para transformação da sociedade moderna e a perda de sentido da vida. Em sua análise, as pessoas com mais acesso aos bens materiais e culturais, se tornavam mais solitárias! Já o antropólogo francês David Le Breton, em pesquisa que data de 2018, analisou o comportamento de risco, em específico do adolescente. Para ele, muitos internautas, e particularmente os adolescentes, concentram-se em seu avatar como um alter ego mais vivo do que eles, e experimentam através dele, formas de sociabilidade, de sexualidade que na vida real ainda os assustam. E afirma: – Sim, é mais fácil ser virtualmente, do que ser na vida real! A saída é coletiva De acordo com Kracauer e Breton, a sociedade pós-moderna e o avanço tecnológico promoveram pessoas mais individualistas, solitárias, sem vínculos afetivos e consequentemente sem identidade. Tais reflexões servem para que nós mães, pais, educadores e educadoras vejamos para além dos problemas pontuais recorrentes e suas consequências na educação de nossos filhos. É contraditório nos dias de hoje pensar a família como necessária, a primeira responsável por criar vínculo social, inserida em um grupo, com histórias, raízes, identidade se, por outro lado, os “provedores” desta família se veem diante da exigência de um estilo de vida, baseado no consumo, nas exigências do mercado e que não os possibilita interagir, dialogar, nem conviver para criar vínculos sociais com seus filhos. Quais são os vínculos que temos com nossos filhos? Quem são os nossos filhos? Pessoas com identidades próprias? Ou seres que projetam em um “avatar” seus sonhos e expectativas? Ou ainda, “zumbis” que caminham para lugar nenhum?

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Dicionário biográfico reúne histórias de 100 mulheres afrodiaspóricas que ajudaram a construir o Brasil

Em celebração ao Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, que será comemorado no dia 25 de julho, a editora Tempestiva disponibilizou, em versão eletrônica, o Dicionário Biográfico: Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas. Organizado pelas professoras e pesquisadoras Thaís Alves Marinho e Rosinalda Corrêa da Silva Simoni, o dicionário foi lançado no final em dezembro de 2023 durante o 1º Simpósio Internacional sobre Histórias Entrelaçadas (SIHE), o 1º Simpósio Internacional da Rede Latino-Americana e Caribenha sobre Feminismos de Terreiros (Relfet), a 18ª Semana Científica de História da PUC Goiás e o 7º Seminário das Linhas de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás. Segundo as organizadoras, a ideia nasceu da necessidade de dar visibilidade às trajetórias de mulheres afrodiaspóricas que, ao longo dos séculos, contribuíram para a construção do Brasil. Foi observando o fenômeno social, nomeado pelas pesquisadoras de “feminismos de terreiros”, que elas elaboraram o projeto com o objetivo de documentar as histórias de cem mulheres que viveram processos de rupturas, continuidades e adaptações provenientes do Atlântico Negro. A partir da ideia inicial, as pesquisadoras convidaram outras mulheres, com acúmulo e domínio na temática proposta, para escreverem as histórias reais de mulheres invisibilizadas pelas desigualdades sociais na linha histórica do Brasil. A seleção dos verbetes e das mulheres biografadas foi feita, portanto, com base na especialidade das autoras colaboradoras, considerando a relevância política, cultural, religiosa e social das personagens históricas para suas comunidades. As organizadoras reiteram que grande parte das autoras são mulheres negras, cujas próprias trajetórias refletem nuances de racismo e sexismo, mas também resiliência e empoderamento. A participação masculina no livro foi condicionada à coautoria com uma mulher, visando superar a ocultação e silenciamento histórico das mulheres afrodiaspóricas. O projeto contou com o apoio da Rede Latino-Americana e Caribenha de pesquisas sobre Feminismos de Terreiros (Relfet), da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), da Associação Nacional de História seção Goiás (ANPUH-GO), do GT de Gênero da ANPUH Nacional e do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Leitura necessária para todas as pessoas que queiram aprofundar seus conhecimentos sobre a vida de mulheres que superaram o preconceito de gênero, etnia, condição social e que, através das lutas cotidianas, ratificaram suas identidades e fizeram de suas existências a razão maior da defesa de seu povo, o dicionário oferece a oportunidade de conhecer mulheres de todos os rincões de nosso país. Muitas encantadas, outras que continuam entre nós vivas, atentas e fortes! Acesse o Dicionário Biográfico: Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas. FLUP A 2ª edição do dicionário será lançado nos dias 10 e 15 de novembro de 2024, durante a Festa Literária das Periferias – FLUP 2024, que será realizada no Circo Voador, Rio de Janeiro, homenageando a historiadora Beatriz Nascimento. O evento terá patrocínio da Fundação Roberto Marinho, Editora Malês e Fundação Ford. Desta vez, além da edição eletrônica, haverá a versão física. As autoras dos verbetes receberão uma cópia impressa durante o lançamento no Rio de Janeiro. A professora Nubia Regina Moreira, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, autora do verbete sobre a história da professora Edna Ribeiro, baiana de Vitória da Conquista, celebrou a publicação, com um depoimento potente, afirmando que o livro é “um ato de insurgência tecido pela Relfet, onde ficam e ficarão registradas as escrevivências das mulheres negras em e na diáspora negra”. “Biografar mulheres negras é um ato de coragem político-epistemológico. É um exercício de escavação das vidas de mulheres que transformaram o cotidiano para si e para as suas comunidades. Como todo exercício de escavação foi preciso unir pontas, fazer redes e apostar que através dos vestígios documentais, das conversas, das imagens, das músicas, das rasuras nos livros, e dos sinais arqueológicos fosse possível produzir um Dicionário de Mulheres Afrodiásporicas. Fruto desse esforço se deve ao fato de que as histórias das mulheres negras estão em curso e é a partir de mãos de outras mulheres negras que elas estão sendo escritas e publicadas”, concluiu. Os 2º e 3º volumes do dicionário biográfico, com histórias de mais 200 mulheres, de acordo com Rosinalda Simoni, já está em fase de finalização e tem previsão de lançamento para o ano de 2025. Organizadoras Thais Alves Marinho – Fez estágio pós-doutoral em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e em História na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professora dos Programas de Pós-Graduação em História (PPGHIST) e em Ciências da Religião (PPGCR) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Membra cofundadora da Rede Latino-Americana de Pesquisas sobre Feminismos de Terreiros (Relfet). Líder do Grupo de Pesquisa Memória Social e Subjetividade. E-mail: thais_marinho@hotmail.com. Rosinalda Corrêa da Silva Simoni – Fez estágio pós-doutoral em História na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Doutora em Ciências da Religião pela PUC – GO. Mestre em Gestão do Patrimônio Cultural também pela PUC – GO. Graduada em História pela UEG. Membro do Grupo de Mulheres Negras Malunga e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). Diretora Fundadora da empresa Tekohá Pesquisas Patrimoniais. Email: rosinegra@gmail.com. Geralda Cunha é radialista, jornalista, mestra em Educação, ativista pelos Direitos Humanos das Mulheres e Direito à Comunicação e colaboradora da Agência Pulsar e escreveu o verbete sobre a ginasta Daiane dos Santos. Edição: Filipe Cabral

terça-feira, 30 de abril de 2024

Humanidade Baixa

“O planeta ficou doente porque está com a humanidade baixa!” (Mafalda) Há muito tempo venho refletindo sobre as nossas atitudes em relação as misérias e tragédias humanas do cotidiano. A indiferença se tornou tão comum, que não conseguia conceituar as cenas, as situações envolvendo os seres humanos diante das mazelas sociais. Ao me deparar com a tirinha da Mafalda - personagem do cartunista argentino Quino - nas redes sociais e a frase que ilustrava a imagem, a qual usei para dar início a este artigo, entendi o significado das situações que rotineiramente protagonizamos e presenciamos. Cada vez mais as cenas de pessoas vivendo em condições subumanas como as pessoas em situação de rua, mendigos, crianças trabalhando em sinaleiros, usuários de drogas em espaços públicos perambulando como zumbis, pessoas idosas, deficientes físicos em dificuldades, são naturalizadas e invisibilizadas. É como se fosse normal a convivência com estas situações. Não nos sensibilizamos e nem nos incomoda ver as condições de sofrimento pelas quais estas pessoas vivem. Estando dentro de um carro com os vidros fechados, assistimos indiferentes a mais um pedido de ajuda, ou a venda de doces ou outros tipos de mercadoria. Agimos como se não tivesse ninguém a nossa frente ou do nosso lado. Nosso olhar perdeu a capacidade de enxergar o que aparentemente não nos diz respeito! Chegamos ao cúmulo da indiferença com o sofrimento dos outros, ou com a condição de pobreza e miséria vivida pelo nosso próximo, que fazemos coro as vozes insensíveis e que criticam quem se sensibiliza e colabora para minimizar o sofrimento desta parcela da sociedade. Conseguem marginalizar ainda mais os empobrecidos e já marginalizados pela sociedade, aumentando o fosso da desigualdade e negligenciando o fato de que a falta de políticas públicas, de educação, de trabalho digno, de políticas de segurança alimentar são fatores que empurram as pessoas para esta condição desumana, subumana. E assim, o nosso olhar anestesiado, a nossa conduta negacionista da realidade vão moldando uma sociedade que nega a própria humanidade preconizada pelo líder supremo do cristianismo. Está preocupada demais em defender verdades absolutas e colocá-las acima da vida humana. Cada vez mais se distancia do que nos faz diferentes dos outros primatas, a nossa humanidade! A frieza com que agimos frente a exterminação dos povos originários, ao genocídio de crianças palestinas, do povo afegão, com a violência e morte de mulheres mundo afora, com a violência e morte de pessoas lgbtqiapn+, com a fome, as guerras fomentadas pelo comércio de armas e o tráfico de pessoas. A ganância cega que empurra o nosso planeta para um caminho sem volta dá a dimensão do quanto às pessoas estão desumanizadas, a mercê daqueles que usam o poder em desfavor da Vida! A medicina nos ensina que adoecemos quando a nossa imunidade baixa. De fato, Mafalda tem razão, quando lembra que o nosso planeta está doente porque nossa humanidade está baixa! Humanidade baixa Geralda Cunha Radialista, jornalista, mestra em educação e ativista em Direitos Humanos

Sororidade

Vamos falar de um termo que se tornou muito comum quando se trata de movimento feminista: Sororidade. Afinal o que significa? O termo vem do latim Soror que significa irmã. Qual a importância da irmandade entre as mulheres? De exercitar a empatia, de se colocar no lugar da outra e entender sua dor, seus dilemas, suas vulnerabilidades numa sociedade estruturada no patriarcado e no machismo? A irmandade baseada na sororidade parte do princípio da capacidade de uma mulher compreender a outra sem pré-julgamentos, colaborando para a superação dos estereótipos preconceituosos criados por esta sociedade que teima em naturalizar as violências sofridas, sejam elas psicológicas ou físicas, que reproduz valores machistas que submetem nós mulheres, a todo tipo de violência. O patriarcado nos deixou um legado de construção social em que os homens foram educados para a competição no mundo dos negócios, da política, para o mundo público, enquanto as mulheres foram e ainda são educadas para o mundo da casa e da submissão ao homem. Neste modelo social, as mulheres vêem as outras como opositoras, concorrentes! Esta cultura é extremamente tóxica e faz com que ainda hoje, após tantas lutas e conquistas, nos vemos em conflito com outras mulheres, e o que é pior, reproduzindo estereótipos construídos pelo patriarcado, ainda que este modelo reforce a conduta de um agressor, um violentador, um autêntico machista, misógino, que não respeita as mulheres e as vê como objeto, propriedade e extensão sua! Os casos recentes envolvendo personalidades do mundo do futebol expuseram esta visão machista de forma assustadora! Inúmeras pessoas, inclusive mulheres, saíram na defesa do agressor famoso, utilizando os argumentos que reforçam os preconceitos contra as mulheres, desacreditando-as, não levando em conta a situação de fragilidade que se encontra a mulher vítima da violência sexual! Felizmente um movimento contrário, que garante os direitos das mulheres, criou um protocolo que identifica mulheres em condição de vulnerabilidade, como aconteceu no caso Daniel Alves. A atitude do segurança da boate local, que tinha conhecimento do protocolo e o colocou em prática, foi fundamental, possibilitando a prisão do jogador e os desdobramentos do caso, que é de conhecimento público. Ao refletir sobre a prática da sororidade, convido minhas irmãs a se espelharem nas histórias de nossas ancestrais benzedeiras, parteiras, nossas avós, mães, tias e irmãs que em um tempo não muito distante, e ainda hoje muito comum na região Norte do Brasil, onde o acesso ao serviço médico é muito difícil, se constituíam e constitui na rede de apoio de outras mulheres que cuidavam e cuidam umas das outras. A superação do patriarcado e a conseqüente superação da violência contra as mulheres, dos altos números de feminicídios e estupro, passa por esta reconexão com a história das nossas ancestrais. É fundamental praticarmos a empatia, a sororidade umas com as outras. Qualquer que seja o nosso lugar: de mulheres negras, indígenas, brancas, crianças, idosas, ricas, pobres, intelectuais, de periferia, ou que ocupam espaço de poder! A sororidade só tem sentido se exercida em sua plenitude, acima de todas as diferenças. Sororidade seletiva não é sororidade!

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Ressonância...

 Ressonância...

Sábado, 10h40. Pontualmente estava na clínica como agendado. Formulário com um pequeno texto explicativo sobre o que consiste o exame, seguido de um questionário que buscava saber mais sobre minha condição física. Cirurgias, uso ou não de próteses. Objetos que sofram efeitos do campo magnético.  Coisas que ajudam a tencionar mais  o que eu iria viver durante os mais de 60 minutos naquela sala branca, com teto cheinho de luzes, como se fosse um céu estrelado, de fundo branco, dentro daquele tubo que nos remete aos filmes de ficção científica.

Concluída a fase de coleta de dados, preenchimento de formulário e questionário, emissão de guias, uma jovem com uniforme verde, me chama pelo nome, entrega um pacote com uma camisola para eu me trocar, pede pra eu tirar tudo o que era metal, e depois, mais algumas perguntas. A ressonância daquela manhã não era a minha primeira, e sim, este era o principal motivo de eu estar ansiosa. O fato de ficar deitada com o corpo dentro de um tubo, com um espaço de menos de 20 centímetros entre o nariz e a parte superior da cápsula, sem condições de se mexer, submetida a sons num período de mais ou menos  uma hora, não é confortável. É assustador, causa pânico.

Bem, sabendo de tudo isto e compartilhando experiências com outras pessoas, o que me restou foi  controlar a minha ansiedade, tentando manter o cérebro focado em outras coisas que não fosse desejar apertar a campainha, que os técnicos colocam em uma das mãos, para acioná-la em caso de necessidade. Já aconteceu de no primeiro minuto, em uma das ressonâncias, eu apertar, pedir para sair e não voltar para dar continuidade ao exame. Não queria passar por isto novamente, até porque interromper o exame significaria ter que enfrentar todo o processo novamente, que não é simples, nem fácil!

Começou. Os técnicos por microfone reforçam a necessidade de  me manter imóvel, sem mexer. Seriam três exames, iniciariam por um, cujo objetivo era investigar possível esclerose. Havia explicado que em um determinado momento eu deveria colocar na boca em tempos diferentes, uma seringa pequena, outra média e outra grande, segurando-as com a boca, sem movimentar língua, sem engolir saliva, enfim...aff! E dai-lhe barulho. Era uma playlist completa. De fundo e antes mesmo do início dos exames, a máquina já emitia um barulho, que mais parecia um som feito por DJ em festa trance. Tistum, tistum, tistum, num compasso simples, que permaneceria como Back Ground ou BG o tempo todo de duração dos exames. Depois foi introduzido um outro som, com outra batida, um martelo? Sim, o barulho era de som de um martelo metalizado. Uma, duas, três...sessenta vezes. Parou! Quantos minutos havia se passado? Dez, quinze? Quando dariam o comando para o momento das seringas? De repente, a voz do técnico: - D. Geralda? Tudo bem? A senhora está se movimentando? Engulindo? Eu disse que sim, estava engolindo saliva, secreções...E o técnico: - não pode D. Geralda, Teremos que começar tudo de novo! Fiquei sem acreditar... Jesus, será que vou conseguir concluir? Começar de novo?

Tudo bem. Vamos lá, eu vou conseguir. Vou tentar me ocupar dos barulhos. Quantas vezes cada som era repetido? O que significava cada tipo de som ali? O que eles mediam? Que imagem meu cérebro ia formando diante dos diferentes sons? E o volume? Sim, era num volume alto, digno de um show de rock. Era isso! Aqueles sons podem perfeitamente servir para compor um arranjo de rock. As imagens certamente dignas de um cenário psicodélico, que o digam os profissionais das projeções nos shows. O momento das seringas chegou, felizmente! Sinal de que estava dando tudo certo. Primeiro exame encerrado.  Mais barulhos – sons, intercalados de pequenos intervalos de silêncio. Minha sina naquela maca ainda não tinha chegado ao fim. Bora contar a sequência de batidas. Um, dois... trinta,  barulho ensurdecedor, cinqüenta, será? Esqueci...melhor pensar na história que me propus a criar para o Rafinha. O menino dos olhos azuis, da terra dos tubarões. Ok, mas não me vinha inspiração. Quanto tempo será que falta? Rayi Kena deve estar no final do vôo para Salvador. O barulho agora era diferente. O tempo está mais compassado, será que este som é a última etapa do exame? Trinta, trinta e um, cinqüenta, cinqüenta e nove, sessenta, sessenta e um... eu que o tempo todo mantive os olhos fechados, resolvi abri-los. Pela primeira vez consegui visualizar o tubo e a grade por cima da minha cabeça, sem sentir pânico. Quanto tempo será que ainda falta? Sessenta e quatro... de repente, silêncio. Um vácuo. Será que ainda tem mais alguma coisa? D. Geralda, tudo bem? Terminamos viu? Correu tudo bem. Gente, que sensação estranha... Acabou? Eu posso sair?

A jovem de uniforme verde entra na sala, aperta o botão da máquina que movimenta, me trazendo para fora do tubo. Ela me ajuda a sentar. Peço para esperar eu me recompor antes de me levantar, já que o movimento de levantar a cabeça, me causa tonturas. Levanto, olho para minha irmã que se manteve o tempo todo na sala, sentada, me acompanhando - o tempo foi tão longo, que ela estava ansiosa para sair dali e procurar um banheiro para fazer xixi. A sensação de alívio era tão grande, que me invadiu uma alegria e uma despreocupação com o momento seguinte, que há muito eu não tinha. Já sei o que fazer, quero bater perna e tomar uma cerveja!

Ressoa a vida, ressoa...

Imagens: RD Xavier(Internet)

Distopia na administração de Goiânia

                                                                  

Distopia na administração de Goiânia

Geralda Cunha – É mestra em Educação pela UFG. Assessora de Comunicação e Ativista pelos Direitos Humanos

            Goiânia sofre com o fenômeno da distopia que acometeu o nosso país nos últimos tempos. A distopia é um pensamento filosófico caracterizada por uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos, o termo surge como o oposto de utopia. Na literatura e no cinema são muitos os exemplos de sociedades distópicas. Quem não se lembra do livro e filme do mesmo nome 1984? Matrix, Mad Max e o brasileiro Bacurau, entre outros? O goiano José J. Veiga abordou o tema no livro A hora dos Ruminantes, de 1967.

             A administração da nossa capital tem sido um bom exemplo de administração distópica A população tem sofrido com esta polêmica e confusa gestão. Quando o assunto é Educação, a  Educação Infantil (uma das etapas prevista na LDB 9394/96 e considerada fundamental na formação do indivíduo),  vem sendo negligenciada ao longo dos anos nas administrações municipais da nossa capital. Ano após ano as demandas não são todas atendidas e crianças, que deveriam estar nos Centros Municipais de Educação Infantil – Cmeis estão fora deles, enquanto mães e pais precisam recorrer ao Ministério Público para terem acesso às vagas que lhes são de direito! Não existe um planejamento para suprir esta demanda e dar dignidade às crianças e suas famílias. Eis que o gestor tira da cartola a brilhante ideia e vai defendê-la no plenário da Câmara Municipal de Goiânia: fechar 50 bibliotecas e salas de leitura, sob a alegação de que os livros causam sinusite! É inacreditável tal argumento! Desconhecimento? Ignorância? Ou má intenção?

            Parece atuam baseados naquela velha máxima: “a gente propõe, se colar, colou!”  Um verdadeiro acinte a nossa inteligência. Agem com dolo, gerindo mal o dinheiro público, na certeza de que vão aceitar  “descobrir um santo, para cobrir outro”, como se não houvesse leis que exigem que as escolas cumpram requisitos básicos para o funcionamento e um deles é a existência de bibliotecas para que as crianças, alunas e alunos tenham acesso aos recursos da leitura, do conhecimento! Também estão previstos que as escolas façam limpezas rotineiras nas caixas d’águas, que tenham estrutura adequada para cadeirantes, proteção nas escadas, rampas, espaços de convivência, salas adequadas ao número de crianças e alunos, de tal forma que é fácil deduzir que esteja previsto profissionis da limpeza que proporcionem ambientes limpos e arejados, impedindo todo o tipo de sujeira que possam causar doenças como a referida pelo gestor!

            Felizmente as autoridades competentes impediram a tentativa de fechamento das bibliotecas de forma irresponsável e autoritária. Infelizmente estamos sendo atropelados por uma onda de gestores que chegaram ao poder e desconhecem como funciona a administração pública. Impõem medidas e quando não conseguem o intento, usam das prerrogativas para “convencer” parlamentares a compactuar com ações que não atendem ao bem comum, pelo contrário, deixam uma camada de fumaça no ar, na tentativa de enganar o povo, não prestando contas, sem transparência, invertendo a lógica de um governo democrático, sendo um governo de e para privilegiados!


quinta-feira, 13 de julho de 2023

Dia mundial do Rock e os dez anos dos Boogarins - Por Geralda Cunha

Hoje é dia de #tbt. Hoje é dia mundial do Rock. Hoje é dia de conversar sobre Boogarins. 

 Não é pra qualquer um não! Eu sempre estive num lugar que mistura orgulho de mãe e admiração da profissional de comunicação por um grupo de jovens que como tantos outros, tinham muitos sonhos e poucas chances de fazerem carreira no meio musical, sendo quem eram: pobres, periféricos, filhos de pais desconhecidos. Tentar entender a história da banda que teve uma ascensão meteórica, alcançando em dois anos de estrada contrato com um selo de disco de renome – Other Music, prêmio de banda revelação no Multishow, indicações para o Grammy Latino, turnês internacionais e serem destaque num dos maiores jornais do mundo, The New Times. 

 Os mininos, como gosto de chamá-los carinhosamente, ousaram e conseguiram chegar em lugares inimagináveis. Fizeram o impossível virar realidade. Encararam os desafios com o talento, a irreverência, nos passando a sensação de que estavam a passeio e não tinham compromisso com nada além deles próprios. Bora gravar na Europa? Bora. Bora gravar em Austin? Bora! Quão agradável é acompanhá-los nos shows em Goiânia ou em qualquer outro lugar. A aura que os cercam e circundam seus shows é sempre de muita leveza, para além das sensações etílicas e psicodélicas. A idéia que fazem prevalecer é de que são trabalhadores da música. 

Cuidando de cultivar uma relação com o público, tão próxima e aconchegante que mais parece encontros de amigos, irmãos. Centros Culturais, Loop, Metrópole, Bananada, Vaca Amarela, Lollapalooza, Rock in Rio, Europa, EUA, Austin, Primavera Sound, Coachella, África. Oficinas de música para reeducandos de Goiás, para jovens em Portugal, no Nordeste. Shows beneficentes. Shows pequenos, shows grandes. Capitais, cidades do interior. Trabalhadores da música que atuam nos palcos, brilham, mas que atendem na lojinha e ainda carregam seus próprios instrumentos. Profissionais de carne e osso! Lá se vão dez anos! 

Os mininos de Goiás, adolescentes remanescentes do Instituto Federal, o IF, se tornaram cidadãos do mundo. Fizeram a transição para a vida adulta, cada um a sua maneira, pé no chão, sedimentando a caminhada com muita música e poesia, com muito respeito a si próprios, a público, aos seus, reverenciando suas histórias, seu gueto, acolhendo o novo e ratificando seus ideais e princípios de vida. Tornaram-se uma grande família. Estando em Sampa, ou no Recife ou ainda no Rio de Janeiro, cada encontro é uma celebração a vida! 

E em se tratando de celebração, o ano de 2023 tem servido para os mininos celebrar a música e o tempo de estrada. Goiânia – a cidade onde tudo começou – vai recebê-los este final de semana, 15/07(sábado), a partir das 16 horas. Será um show para celebrar os dez anos de estrada dos Boogarins e oito anos de existência do Shiva Bar. o show será na rua (R 18/Setor Oeste). Os ingressos estão disponíveis na bio do Shiva Bar: linktr.ee/shiva.altbar. Primeiro e segundo lotes esgotados. Junto com os minunos estarão Furmiga Dub e Flávia Carolina, encarregados das preliminares. A noite deste sábado, pós dia mundial do Rock, será com certeza uma noite para guardar em nossos corações. Nos encontraremos lá! #rocknaveia #diamundialdorock #boogarins #rockpsicodélico #rocknacional

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Cancelamento nas redes sociais - jornal O Popular - 03/01/2022

 

Cancelamento nas Redes Sociais

Geralda Cunha

Comunicadora Social, Educadora, Policial Aposentada, Ativista na defesa dos Direitos Humanos

A dinâmica da convivência pelas redes sociais nos apresentou um significado mais agressivo para a palavra cancelamento. O que antes era um termo técnico para algo que remetia a falhas burocráticas, hoje tem vários significados.

A “convivência” virtual expôs um lado das pessoas que não conhecíamos, ainda que existisse e não é de hoje. Cancela-se por qualquer coisa: de acordo com a comunicóloga e pesquisadora em comportamento Clara Fagundes, as pessoas têm prazer em julgar outras pessoas, em participar da ruína de outras pessoas, se elas forem “vilãs”!

Recentemente entrou em cartaz pela Netflix o filme “Não olhe pra cima”, com Leonardo Di Caprio, Meryl Streep e Jennifer Lawrence, a comédia/catástrofe, é uma alegoria ao método de fazer política segundo Steve Bennon, baseado na estética das aparências e na potencialização da manipulação pelas redes sociais.

Não por acaso o marqueteiro foi preso pelo FBI por fraudes e lavagem de dinheiro. Creio que a fraude e o alinhamento do Estado com o capital financeiro são as principais  metáforas do filme, que mostra as verdadeiras faces de políticos  importantes mundo afora! Estão preocupados em “parecer ser”, no espaço das redes sociais. Essas se tornaram as “ágoras” no mundo virtual. Nela se, vive se posiciona, se acredita e se “cancela” de acordo com os interesses econômicos, políticos e ideológicos.

No filme negligenciaram (cancelaram) o fato real da colisão do meteoro com a terra. Aqui no nosso quintal (Brasil) cancelaram e cancelam tudo o que não esteja de acordo com o pensamento negacionista de um pretenso governo:  crise sanitária, desmatamentos, desempregos, inflação, preços em alta, vacina, enchentes, mortes! Investem e apostam em um Brasil irreal, construído e fomentado por algoritmos, robôs e uma minoria raivosa! Apostam no quanto pior, melhor! Apostam na eficiência das fakenews. Assim como no filme, o que menos importa é a veracidade dos fatos, as fontes das notícias e muito menos nas conseqüências que as falsas notícias provocam na vida das pessoas. Promovem o CAOS.

Em 2022, ano eleitoral carregado de expectativas e incertezas, inspiremos-nos em Paulo Freire e no livro Educação como Prática da Liberdade (1967), que continua extremamente atual: a partir da definição do que é transitividade crítica - que se caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas - ele nos ensina a substituir explicações mágicas por princípios causais, a despir-nos ao máximo de preconceitos na análise dos problemas. A nos basear na prática do diálogo e não da polêmica. A ser receptivo ao novo, não apenas porque novo e pela não-recusa ao velho, só porque velho, mas pela aceitação de ambos, enquanto válidos. E nos provoca a entender que assumir a transitividade crítica, implica num retorno à matriz verdadeira da democracia. Neste universo, não cabe cancelamento!


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Polícia para quem?

  • Policial aposentada, comunicadora social, educadora e ativista pelos Direitos HumanosA Constituição Federal de 1988 significou para a sociedade brasileira uma virada de página, encerramento de um ciclo recheado de atos institucionais, que validavam as arbitrariedades, principalmente das polícias que promoviam perseguições, torturas e extermínios a qualquer sinal de “ameaça”. Naquele período, o que a princípio era método para perseguir e punir militantes políticos de esquerda, se naturalizou, virou regra.  O novo ciclo – da Constituição Cidadã - que acreditávamos ser o início do regime democrático “ad eternum”, com condutas pautadas na lei, começou com mudanças significativas no cotidiano das polícias, mesmo com certo saudosismo de policiais que creditavam o fim da polícia, às mudanças! Podemos dizer que o jeito de fazer polícia que conheciam, com poder de “vida e morte” sobre as outras pessoas, perdera força com a nova Constituição.

    Os anos 2000 trouxeram experiências exitosas de policiamento comunitário. Diadema – SP, Canoas-RS, Goiás. Neste modelo, os métodos truculentos de investigação dão lugar aos científicos, prevalece o policiamento preventivo com abordagens que não prevêem o uso da força ou da violência.  Os cursos de formação para policiais têm em seus currículos a disciplina de Direitos Humanos, mas infelizmente, não deixaram de lado uma formação baseada na força, em situações de verdadeiras provas e treinos de guerra, sob a crença  de forjar profissionais infalíveis.

    A polícia brasileira do século XXI é considerada a mais violenta do mundo (Le Monde de 18 de junho de 2020), não conseguiu superar o ranço da ditadura militar e muito menos da cultura escravocrata. Persegue e criminaliza Preto, Pobre e Prostituta. Mesmo com as tentativas de modernização e mudança de cultura, a polícia truculenta persiste. Denúncias por todo o Brasil dão conta do que vivemos: execuções sumárias de jovens da periferia, mortes por “confronto”, ainda que as cenas dos crimes apontem para execução; jovem sendo algemado e conduzido, preso em garupa de moto!  Em 2019 a polícia brasileira matou seis mil pessoas, cinco vezes mais que os EUA.  Tais atitudes são endossadas por muitos cidadãos de bem, que pregam que “bandido bom é bandido morto”.

    Nesta lógica de polícia, a população pobre, preta e periférica sempre estará em “atitude suspeita”. Denunciar, debater e enfrentar a polícia violenta é o caminho.  A Defensoria Pública de São Paulo elaborou uma cartilha em que orienta os cidadãos a registrar a ação de policiais, como forma de fiscalizar e prevenir violações de direitos humanos. Outra medida adotada pelo governo de São Paulo foi a instalação de câmeras de vídeo e gravação nos fardamentos dos policiais, o que resultou na diminuição das mortes por intervenção policial em 54%, durante os meses de maio e junho deste ano. São medidas necessárias, em que pese saber que a superação do modelo de polícia vigente passa pela superação das desigualdades e das injustiças sociais.

    Publicado no jornal O Popular de 10.12.2021


    quinta-feira, 25 de novembro de 2021

    Violência contra a mulher, até quando?

    O dia 25 de novembro marca os 61 anos do assassinato das irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa), dominicanas que ficaram conhecidas como Las Mariposas. Em 1999 as Nações Unidas instituiu a data – proposta por feministas - como o dia internacional pela eliminação da violência contra as mulheres, homenageando as irmãs Mirabal. 

    Os números nos dão conta que a violência contra as mulheres é um problema presente não só nos países empobrecidos, ou de cultura islâmica, onde o machismo prevalece e os direitos das mulheres são quase inexistentes. Na semana passada a jornalista brasileira Denise Rodrigues radicada em Paris, publicou nas redes sociais da ONG - Mulheres na Comunicação, imagens de uma passeata nas ruas de Paris, na tarde fria de sábado (20), com a participação de mais de 50 mil pessoas, manifestando-se contra as violências sexuais e sexistas. De acordo com Rodrigues, mulheres, homens e crianças, apesar do frio e da pandemia foram para as ruas exigir do Estado, políticas públicas que coíbam tais violências que hoje vitimizam em torno de 220 mil francesas, deste total,  94 mil vítimas de estupro e 101 assassinadas por seus companheiros. 

    No Brasil a situação das mulheres é alarmante. Levantamento feito pelo Datafolha divulgado em junho deste ano, encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no último ano. A pandemia deixou as mulheres mais vulneráveis, elas tiveram mais dificuldades de denunciar as violências, já que o agressor passou a ficar mais tempo em casa. Outro dado trágico, nos dois primeiros meses da pandemia houve um aumento do feminicídio, o assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres. 

    Aqui, na França, nos países islâmicos ou latinos, qualquer lugar que seja deste planeta, a eliminação da violência contra as mulheres requer um trabalho efetivo de todos os segmentos sociais e fundamentalmente do Estado. Para além dos tratados internacionais como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e a Convenção de Belém do Pará, é preciso enfrentar o problema local com a seriedade que ele exige. 

    A lei Maria da Penha prevê inúmeras ações simultâneas e interligadas, como as delegacias especializadas,  casas abrigos, centros de atendimentos com equipe de multiprofissionais, o tratamento a vítima e ao agressor, a qualificação de profissionais, entre outras, porém os 15 anos de sua implementação, não foram suficientes para sua total efetivação. Seguimos presenciando a ausência dos mecanismos previstos em lei e a naturalização da violência entre aqueles e aquelas que deveriam ser o porto seguro das mulheres em situação de vulnerabilidade. 

    A propósito, como está a construção da Casa da Mulher Brasileira lançada pelo governo federal, em Goiânia em julho de 2020?

    segunda-feira, 20 de abril de 2020

    Mídia Alternativa – o quinto poder


    Qual o  papel da imprensa e dos meios de comunicação frente a uma sociedade democrática? O jornalista e sociólogo espanhol  Ignácio Ramonet em artigo intitulado,  O quinto poder(2003),  deu a medida exata do papel da imprensa e dos  meios de comunicação, no período que antecedeu a revolução digital e a intensificação da globalização.  Para ele, numa sociedade democrática os três poderes tradicionais – Legislativo,  Executivo e Judiciário – poderiam falhar, cometer erros; a imprensa, no entanto, representava o poder fiscalizador, aquele que frente às falhas e erros, investigava, denunciava, criticava, resistia. Portanto, durante muito tempo, por atitudes corajosas, isentas e de alto senso cívico, a imprensa e os meios de comunicação eram conhecidos com o quarto poder.

    No final do século XX, com o avanço da globalização,  do grande capital, da privatização e a consequente redução do Estado, em detrimento do público, dos direitos dos trabalhadores, também  os meios de comunicação , seguindo o mesmo movimento de concentração e fusão de grandes empresas, tornam-se empresas com vocação planetária, onde os interesses econômicos prevaleciam em detrimento do poder fiscalizador. A  imprensa, de acordo com Ramonet, deixou de ser vista como o quarto poder, perdeu  a sua função  fundamental de contrapoder.

    Historicamente no Brasil, os meios de comunicação como veículo de comunicação de massa, estiveram  atrelados ao poder político, usufruindo das benesses do Estado. Que o digam os Diários Associados de Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas; ou a família Marinho e o Regime Militar, para não citar outros.  Tal modelo centralizador  proporcionou a políticos/empresários  adquirirem concessões de tvs e rádios e jornais, dando origem as propriedades cruzadas. Uma forma de ter domínio sobre todos os meios de comunicação e utilizá-los de acordo com os interesses políticos de quem estava no Poder.

    No Brasil os meios de comunicação estão concentrados nas mãos de quatro ou cinco famílias, que têm uma relação nada ética e baseada em interesses comuns, com as autoridades constituídas, fazendo prevalecer os interesses dos grupos midiáticos em desfavor da sociedade brasileira. Aqui a lei que regulamenta os meios de comunicação e deveria servir de parâmetros, limite, regras, está obsoleta,  data de 1962. Não existe vontade política e muito menos das empresas de comunicação de mudar o que aí está! Qualquer manifestação em contrário é imediatamente abafada, execretada, morta e sepultada!  A primeira e única  Conferência Nacional de Comunicação(2010), é talvez, o maior exemplo disso. Ela foi construída com muita dificuldade, boicotada pelos grandes veículos de comunicação e em alguns estados, como foi o Estado de Goiás,  o Executivo, não se deu o trabalho de convocá-la. A iniciativa partiu de representante do Legislativo goiano (Mauro Rubem), de instituições públicas como a Universidade Federal de Goiás e de organizações não governamentais como  o Fórum pela Democratização da Comunicação, a Associação Mulheres na Comunicação e o Centro Cultural Cara Vídeo.  A Conferência Nacional de Comunicação foi uma dúvida até horas antes de sua abertura,  devido a pressão da única emissora de TV, a Bandeirantes, que ameaçava, sair  comprometendo assim, a legitimidade da convenção. Infelizmente, apesar do governo Lula ter sido  o grande responsável pela empreitada, não encaminhou nenhuma das decisões retiradas daquela histórica conferência! Certamente, se  tivessem se concretizado,  nossa realidade hoje, seria outra!

    Apesar das particularidades do modelo tupiniquim, as empresas de comunicação brasileira e consequentemente os meios de comunicação seguem a vocação mundial: estão a favor dos grandes interesses econômicos e contra  os direitos da maioria da população, como diz  Ramonet, com  o objetivo de esmagar o cidadão.

    Ramonet  aponta alternativa a esta cooptação do quarto poder: criar o quinto poder.  E como seria este quinto poder? Ele nos ensina:  Um “quinto poder” cuja função seria a de denunciar o superpoder dos grandes meios de comunicação, dos grandes grupos da mídia, cúmplices e difusores da globalização liberal. Meios de comunicação que, em determinadas circunstâncias, não só deixaram de defender os cidadãos, mas, às vezes, agem explicitamente contra o povo.  

     A mesma revolução digital que serve a concentração das empresas de comunicação e a sua vocação planetária de concentração dos meios e da produção, por outro lado,  possibilita a atuação  dos movimentos e profissionais que atuam na defesa, na fiscalização e no enfrentamento aos grandes grupos de comunicação. Os movimentos de comunicação popular são exemplos disso, organizados em associações, organizações não governamentais, fóruns e coletivos, hoje utilizam da internet e das redes sociais, assim como de ferramentas de baixo custo para atuar na contramão das empresas de comunicação.  Podemos citar a Amarc – Associação Mundial de Rádios Comunitárias,  organismos que atuam em rede  como o Mídia Ninja,  o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, o jornal semanal  político Brasil de Fato,  criado por ocasião do Fórum Social de Porto Alegre, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, a organização  não governamental  Artigo 19. Estes são alguns com  atuação nacional  e mundial,  e,  pensando na comunicação local, podemos falar  da Associação Mulheres na Comunicação, do Comitê de Direitos Humanos D. Tomás Balduíno,  da rádio comunitária Noroeste!  Para  Ramonet,  tais exemplos constituem em contrapeso indispensável ao excesso de poder dos grandes grupos de comunicação. Tais entidades têm responsabilidade coletiva, em nome do interesse superior da sociedade e do direito dos cidadãos e cidadãs de serem bem informados e ficarem protegidos contra a sociedade das manipulações da mídia. E eu acrescento, protegidos contra a manipulação das fake News!

    Geralda Ferraz
    Radialista, jornalista, educadora, articulista do blog Comunicação, Educação e Gênero, militante dos movimentos de Direitos Humanos.

    Fonte Bibliográfica:
    1.    O quinto poder, Ignácio de Ramonet, Publicado na edição brasileira do Le Monde Diplomatique nº 45, outubro de 2003.

    Direitos Humanos existem?


    Artigo publicado no jornal O Popular - 12/12/2019

    Geralda Ferraz, radialista, educadora e ativista pelos Direitos Humanos
    A Declaração Universal dos Direitos Humanos,  promulgada em 10 de dezembro de 1948, completa 71 anos e continua sendo  parâmetro fundamental para as relações humanas  em qualquer âmbito.  Tornou-se lugar comum tratar os Direitos Humanos como algo distante de nós. É prática de ignorantes, equivocada  e maldosa  se referir aos Direitos Humanos como  invenção de grupos de pessoas que defendem  bandidos! Em que pese ninguém parar pra pensar que bandidos são seres humanos, não seres de outro planeta! Têm histórias, e na maioria das vezes, histórias silenciadas pela ausência dos Direitos Humanos em seus lugares de origem!
    Hoje quando se fala em  Direitos Humanos, vale a pergunta:  para onde caminha a humanidade? A velocidade imposta pela  vida contemporânea,  tem nos feito cada vez mais irracionais e impulsivas. O estilo fast-food ( comida rápida) de viver, não nos permite relações afetivas,  a convivência e muito menos a reflexão! Todas as nossas ações precisam estar em consonância com as  “necessidades” deste  tempo.  Não há tempo para as paradas! Cada vez mais somos impelidas a viver sozinhas, mesmo vivendo em sociedade! A lógica é, se eu resolver o meu problema, já está de bom tamanho!  
    O estilo fast-food de viver está em consonância com o modelo econômico neoliberal e suas medidas que incentivam a liberdade de mercado e a diminuição do Estado e consequentemente a flexibilização das leis trabalhistas, a diminuição das políticas sociais para o combate das desigualdades sociais, a diminuição dos recursos para as áreas da  Educação, Saúde e  Segurança Pública, dentre outras!  
    Ao contrário do discurso que valida as mudanças  econômicas e o alinhamento ao modelo neoliberal ,  que coloca o mercado como centro das decisões, transferindo  o ônus  destas mudanças  para a população  empobrecida, é preciso colocar as pessoas, todas elas, com suas especificidades, diferenças, diversidades, crenças, a frente de todo e qualquer modelo econômico! Só assim, poderemos falar de Direitos Humanos como condição inegociável para todos! Só assim, conseguiremos combater as desigualdades sociais e fazer justiça social!
    A nossa realidade demonstra que é  urgente pensarmos soluções para a garantia de direitos da população em situação de rua, para o genocídio  da juventude negra e de periferia, para a criminalização e extermínio dos indígenas,  para o assentamento das pessoas que lutam pela terra, para a  população LGBTTs, para a liberdade de expressão, para a vida digna e sem violência das mulheres  e   tantos outros direitos usurpados todos os dias, pela ausência do Estado, onde ele  deveria estar presente,  e o excesso dele, onde ele deveria garantir  a vida digna para todas as pessoas!
    Onde o mercado e o lucro são mais importantes que as pessoas, não há garantia de direitos!

    Masculinidade Tóxica

    Publicado no jornal O Popular - 17.10.2019

    O tempo tem sido testemunha de grandes mudanças no comportamento humano, impulsionados pelas exigências de um novo modo de viver, que passa pela condução da vida para o sucesso na perspectiva do TER, inversamente proporcional ao SER. As pessoas encontram-se diante de grandes desafios. Como avançar na convivência/relacionamento humano, sem reconhecer suas raízes, superar o que não os faz melhor, para tornarem-se melhores? A masculinidade tóxica é um comportamento atual, resquício da sociedade patriarcal, potencializada na nossa sociedade e que têm contribuído no aumento da violência, sobretudo da violência contra a mulher. 


    Professor na Universidade de Córdoba -  Espanha, Octávio Salazar, é autor do livro "El hombre que no deberíamos ser", afirma que há uma construção simbólica do que é ser homem, que precisa mudar, quando se pensa uma sociedade mais justa. Ele cita alguns exemplos que estão presentes na nossa sociedade e que atrapalham a busca da sociedade igualitária: meninos não choram – não podem ser sensíveis. Meninos engolem o choro e não demostram frustrações;  meninos  precisam brigar -  uma cultura que enfatiza a agressividade como uma característica masculina. O diálogo nunca é apresentado como forma  de resolver os conflitos; coisas de meninos – condutas que reafirmam padrões  equivocados da nossa cultura, de forma que meninos que demonstram interesses em brincadeiras diferentes dos modelos dominantes, passam a ser oprimidos, discriminados; bicha, mariquinha, fresco -  são termos comuns ditos nas famílias, quando veem  meninos  que demonstram preferências em  brincadeiras diferentes do que culturalmente foi associado ao universo masculino, reforçando o discurso homofóbico  e a convicção patriarcal de que há uma única forma de ser homem; o homem é uma máquina sexual - modelo de homem que para ser considerado macho,  precisa ter várias parceiras sexuais e que naturalmente tem comportamento abusivo em relação às mulheres; homem responsável /homem molenga - os homens não podem exercer suas responsabilidades como parceiros, pais, sob pena de serem considerados fracos e comandados pelas mulheres;  e por fim ideia  de que o homem é um ser bruto, de  características animalescas e  que portanto, não pode ser  sensível, culto e de boa educação, como recentemente em vídeo, um certo pastor, insinuou ao falar  das características que um homem deve ter para ser o “cabeça”  do lar.

    A masculinidade tóxica é inversamente proporcional ao modelo de homem em uma  sociedade igualitária. O tema vem sendo pautado, inclusive por homens em busca de respostas para suas angústias na vida contemporânea. Debater o assunto é  contribuir na superação da violência doméstica e na construção de uma sociedade de iguais!

    Juventude Sacrificada

    Publicado no jornal O Popular, 22.02.2019

    Rio de Janeiro, fevereiro de 2019: dez jovens morrem carbonizados na concentração do Flamengo. Goiânia, maio de 2018: dez jovens morrem carbonizados em uma cela! Enquanto as vítimas do “Ninho do Urubu” buscavam no futebol, a realização de seus sonhos, as vítimas do Centro de Internação Provisória (CIP), tinham um sonho em comum, a liberdade!

    A violência que mata, tem um perfil de vítimas: na maioria negros, de origem pobre, que sonham ficarem ricos, tirar a família da pobreza e serem reconhecidos, assim como seus ídolos! A gente sabe que este é um sonho de milhares de jovens. Muitos inclusive, usados por pessoas que se autointitulam empresários e que enriquecem como este tipo de negócio. Quantas famílias não se sacrificam, para financiar o sonho dos filhos e os seus?

    Vivemos tempos difíceis! Durante os últimos 30 anos testemunhamos avanços e conquistas sociais baseadas em leis que pensavam a educação de crianças e jovens; a inclusão da população negra empobrecida! Presenciamos movimentos, organizações não governamentais reivindicando junto aos governos a garantia de tais direitos, mudando a história e o destino de milhares de jovens.
    Ainda que os avanços existissem, era claro que havia muito por fazer! A mudança de paradigmas, da meritocracia, para o direito de todos; do Brasil no mapa da violência, para a diminuição das desigualdades, estava longe de ser alcançada.

    Com os últimos acontecimentos sociais e políticos em nosso país, eis que o dito popular “nada é tão ruim, que não possa piorar”, tem ganhado formas de filme de terror. Medidas governamentais que congelam investimentos em áreas estruturantes como Educação, outras que autorizam policiais atirarem para matar, possibilitando execuções dos que estão em condições de vulnerabilidade; extinção de ministérios e secretarias e a nomeação de pessoas sem perfis técnicos para áreas estratégicas, nos deixam apreensivos e desesperançados!

    Se nada for feito em favor das vidas de nossas crianças e jovens que vivem à margem da sociedade, em pouco tempo teremos um exército de jovens enclausurados em um sistema penitenciário falido e outro tanto mortos em “confrontos” ou tragédias anunciadas. Diante disso, não é preciso fazer exercício de futurologia: a realidade já aponta para um país envelhecido que sacrifica sua juventude em nome de falsas políticas desenvolvimentistas!