terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Artigo | “O agente secreto”: um espelho onde encontrar boa parte da nossa história
Por Geralda Cunha*
“Uma boa história, ela pode ser brutal e pode ser cheia de amor e afeição.”
Kleber Mendonça Filho
Deve ser normal assistir a um filme e se ver representada nele, através de seu enredo, dos cenários, figurinos, dos personagens, principalmente quando o filme, uma ficção, é permeado pela história recente brasileira. Agora não deve ser comum, identificar nos personagens fictícios, histórias vividas por pessoas que você conheceu, conviveu durante um tempo de sua vida, ou deve ser mais do que comum, vai saber!
A história de Kleber se passa em 1977, em pleno período da ditadura militar, na cidade do Recife, em Pernambuco. A direção de arte e figurinos fizeram um trabalho impecável, com a gente identificando um Brasil da nossa infância através dos carros, dos prédios, das vestimentas das pessoas, das representações das festas, como o carnaval, das músicas que eram sucesso à época.
Mas apesar disso, eu fiquei impactada mesmo foi com as especificidades das situações (cenas) e tramas criadas nos ambientes que remetem à cultura policial, com a naturalização da violência cotidiana, através dos modus operandi dos policiais e também de como a população periférica lidava com o desprezo do Estado pela vida. Como as pessoas eram convencidas que as fatalidades eram normais e vida que segue!
E por que tais cenas me impactaram? Bem, eu, goiana, nascida em 1965, vivi toda a minha infância no período da ditadura militar. Falar de política em casa, na rua era algo impensável. Fui admitida no Colégio Estadual Pedro Gomes, conhecido por ter sofrido dura repressão da polícia e por ter alunos presos, mortos, como perseguidos políticos.
E quando entrei para o ensino médio em 1980, o Colégio guardava muitos segredos, seus servidores mais antigos, se negavam a falar sobre as perseguições e o que eles presenciaram no final da década de 60. A história deste período veio para nós em recortes. Histórias contadas a boca miúda, livros ainda proibidos e a gente com uma vontade danada de entender o que se passara naqueles corredores.
Quem eram os perseguidos? Quem eram os “alcaguetas”? Onde estavam os desaparecidos políticos? Em quais condições estudantes presos, foram encontrados mortos? Como a família teve acesso aos corpos? Ainda que começássemos a respirar ares da “Nova República”, com eleições municipais e estaduais para os cargos executivos e parlamentares, o medo pairava no ar!
Concluí o Ensino Médio com uma pequena bibliografia sobre este período da ditadura militar e fui aprovada no vestibular de uma universidade privada – a Universidade Católica de Goiás, hoje PUC. Para custeá-la, eu precisava trabalhar, não tinha outra alternativa. Meus pais não tinham condições de bancar meus estudos e de mais duas irmãs! Foi neste contexto que eu, uma jovem ingênua, trazendo na bagagem alguma leitura sobre o período da ditadura, me deparo com os primeiros textos xerofotocopiados de Marilena Chauí e Paulo Freire, me introduzindo no mundo da filosofia e da política. O meu primeiro ano de faculdade também foi o ano mais desafiador, porque precisava trabalhar para poder custear os meus estudos. Eis que surge um edital para concurso na Polícia Civil de Goiás. Era a única alternativa que tinha. Receosa, me inscrevi e fui, etapa por etapa, avançando, até ser aprovada e tomar posse no ano de 1984, aos 19 anos, em uma delegacia de polícia! E o banho de realidade que tomei, me impactou por toda a minha vida!
Assistir ao filme “O agente secreto” me transportou para o período em que iniciei a minha carreira como policial e vivenciei muito intensamente uma realidade que eu desconhecia: salinhas com aparelho de choque elétrico e pau de arara, como métodos de investigação; o famoso porte de arma era fornecido pela delegacia de controle de armas e munições; delegados de polícia “calça curta”, aqueles sem conhecimentos técnicos, indicados por algum político, com super poderes; uma relação intensa entre polícia e o submundo do crime, que ia muito além da figura da autoridade e do “fora da lei”, não era incomum a gente ter dificuldades para saber quem de fato era o bandido!
Sim, eu vivenciei histórias e plantões em noites de carnaval, que o chamado para uma ocorrência policial, interrompia a festa do delegado chefe, que chegava irritado no local do crime, com resquícios das noitadas carnavalescas, restos de batons na pele, confetes pelo corpo, roupas amassadas e molhadas de suor e muito bafo de álcool! Os encontros nas salas da delegacia entre pessoas conhecidas que dominavam o crime local e policiais que recebiam no final do dia os “arregos”, dando cobertura para os pequenos furtos nas linhas de ônibus, nos pequenos comércios, para que as prostitutas pudessem trabalhar sem serem incomodadas, enfim… era um período em que os métodos da ditadura, colaboraram para que existisse na polícia uma cultura de permissividade e da estruturação de métodos próprios, à margem do que estava previsto em lei.
Os melhores policiais, eram aqueles considerados os mais violentos: os mais corajosos e que transitavam por todos os lugares sempre acompanhados de seus fieis escudeiros. Onde chegavam eram recepcionados com cerimônias, e muitos privilégios. De forma que os espaços por eles freqüentados, tinham sempre uma segurança extra! Eles podiam tudo e quem os acolhiam tinham proteção diferenciada.
A cena do corpo no chão, coberto por um jornal e já em estado de putrefação, parece algo irreal e de fato fictício, mas de novo, minha memória trouxe lembranças de muitos momentos vividos, estando do outro lado da linha telefônica, em uma delegacia ou mesmo no IML. Por motivos vários, corpos ficavam expostos, à espera das autoridades policiais que por falta de equipamentos, de pessoal, ou mesmo por negligência demoravam uma eternidade para chegarem no local do crime e proceder ao trabalho de perícia e recolhimento do corpo. Cenas tão comuns que a própria população, como o frentista do filme, via como normal, em que pese o personagem do agente secreto ter se assustado.
A identificação com o filme é imediata. Kleber foi genial e conseguiu nos afetar, nos fez sentir parte da história, das situações cotidianas, tragicômicas tão nossas, tão brasileiras. Situações retratadas no filme, que cabem nas histórias de cada um de nós.
Surpreendente foi também o desfecho do filme, quando a pesquisadora preocupada em preservar os documentos e a memória referentes ao professor, procura seu filho, um jovem médico, e encontra uma pessoa amável, mas distante da história vivida pelo seu pai. Fica claro então que o vínculo com o passado e o pai se restringia à lembrança de ter esperado pelo pai e ele não aparecer para buscá-lo. Seguia a vida, praticando o seu ofício sem a pretensão de fazer justiça e resguardar a memória dos seus entes queridos!
Quando Wagner Moura, ao receber o troféu Globo de Ouro por seu trabalho em “O agente secreto”, diz: “Se traumas podem ser passados entre gerações valores também podem”, ele dá a verdadeira dimensão de como a vida é. Muita gente que hoje, órfã da ditadura militar, desconhece a história e o papel de seus pais é porque este direito foi tirado deles.
Há uma lacuna grande entre o período da ditadura e a abertura política, muita coisa não foi esclarecida e muitos desaparecidos se tornaram assassinos de si próprios. A falta de reparação e contextualização histórico-política ainda hoje faz muitos acreditarem que os militares e a ditadura foram necessárias e contribuíram para o desenvolvimento do país.
“O Agente Secreto”, assim como “Ainda estou aqui” são filmes que expõem de forma simples, mas compreensível, a tragédia que este período provocou no país em todos os aspectos, inclusive na vida e na formação das gerações pós-ditadura militar. São abordagens necessárias, atuais, que ajudam a abrir a cabeça das pessoas sobre um período difícil e pouco conhecido por boa parte dos brasileiros e brasileiras.
Parafraseando Wagner Moura, precisamos de mais filmes sobre a ditadura, para conhecermos nossa história, sem meios termos, sem meias verdades! Conhece-la, fazer memória, não esquecer para não repeti-la!
* Para a Agência Informativa Pulsar Brasil
https://agenciapulsarbrasil.org/artigo-o-agente-secreto-um-espelho-onde-encontrar-boa-parte-da-nossa-historia/
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
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