terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Artigo | “O agente secreto”: um espelho onde encontrar boa parte da nossa história

Por Geralda Cunha* “Uma boa história, ela pode ser brutal e pode ser cheia de amor e afeição.” Kleber Mendonça Filho Deve ser normal assistir a um filme e se ver representada nele, através de seu enredo, dos cenários, figurinos, dos personagens, principalmente quando o filme, uma ficção, é permeado pela história recente brasileira. Agora não deve ser comum, identificar nos personagens fictícios, histórias vividas por pessoas que você conheceu, conviveu durante um tempo de sua vida, ou deve ser mais do que comum, vai saber! A história de Kleber se passa em 1977, em pleno período da ditadura militar, na cidade do Recife, em Pernambuco. A direção de arte e figurinos fizeram um trabalho impecável, com a gente identificando um Brasil da nossa infância através dos carros, dos prédios, das vestimentas das pessoas, das representações das festas, como o carnaval, das músicas que eram sucesso à época. Mas apesar disso, eu fiquei impactada mesmo foi com as especificidades das situações (cenas) e tramas criadas nos ambientes que remetem à cultura policial, com a naturalização da violência cotidiana, através dos modus operandi dos policiais e também de como a população periférica lidava com o desprezo do Estado pela vida. Como as pessoas eram convencidas que as fatalidades eram normais e vida que segue! E por que tais cenas me impactaram? Bem, eu, goiana, nascida em 1965, vivi toda a minha infância no período da ditadura militar. Falar de política em casa, na rua era algo impensável. Fui admitida no Colégio Estadual Pedro Gomes, conhecido por ter sofrido dura repressão da polícia e por ter alunos presos, mortos, como perseguidos políticos. E quando entrei para o ensino médio em 1980, o Colégio guardava muitos segredos, seus servidores mais antigos, se negavam a falar sobre as perseguições e o que eles presenciaram no final da década de 60. A história deste período veio para nós em recortes. Histórias contadas a boca miúda, livros ainda proibidos e a gente com uma vontade danada de entender o que se passara naqueles corredores. Quem eram os perseguidos? Quem eram os “alcaguetas”? Onde estavam os desaparecidos políticos? Em quais condições estudantes presos, foram encontrados mortos? Como a família teve acesso aos corpos? Ainda que começássemos a respirar ares da “Nova República”, com eleições municipais e estaduais para os cargos executivos e parlamentares, o medo pairava no ar! Concluí o Ensino Médio com uma pequena bibliografia sobre este período da ditadura militar e fui aprovada no vestibular de uma universidade privada – a Universidade Católica de Goiás, hoje PUC. Para custeá-la, eu precisava trabalhar, não tinha outra alternativa. Meus pais não tinham condições de bancar meus estudos e de mais duas irmãs! Foi neste contexto que eu, uma jovem ingênua, trazendo na bagagem alguma leitura sobre o período da ditadura, me deparo com os primeiros textos xerofotocopiados de Marilena Chauí e Paulo Freire, me introduzindo no mundo da filosofia e da política. O meu primeiro ano de faculdade também foi o ano mais desafiador, porque precisava trabalhar para poder custear os meus estudos. Eis que surge um edital para concurso na Polícia Civil de Goiás. Era a única alternativa que tinha. Receosa, me inscrevi e fui, etapa por etapa, avançando, até ser aprovada e tomar posse no ano de 1984, aos 19 anos, em uma delegacia de polícia! E o banho de realidade que tomei, me impactou por toda a minha vida! Assistir ao filme “O agente secreto” me transportou para o período em que iniciei a minha carreira como policial e vivenciei muito intensamente uma realidade que eu desconhecia: salinhas com aparelho de choque elétrico e pau de arara, como métodos de investigação; o famoso porte de arma era fornecido pela delegacia de controle de armas e munições; delegados de polícia “calça curta”, aqueles sem conhecimentos técnicos, indicados por algum político, com super poderes; uma relação intensa entre polícia e o submundo do crime, que ia muito além da figura da autoridade e do “fora da lei”, não era incomum a gente ter dificuldades para saber quem de fato era o bandido! Sim, eu vivenciei histórias e plantões em noites de carnaval, que o chamado para uma ocorrência policial, interrompia a festa do delegado chefe, que chegava irritado no local do crime, com resquícios das noitadas carnavalescas, restos de batons na pele, confetes pelo corpo, roupas amassadas e molhadas de suor e muito bafo de álcool! Os encontros nas salas da delegacia entre pessoas conhecidas que dominavam o crime local e policiais que recebiam no final do dia os “arregos”, dando cobertura para os pequenos furtos nas linhas de ônibus, nos pequenos comércios, para que as prostitutas pudessem trabalhar sem serem incomodadas, enfim… era um período em que os métodos da ditadura, colaboraram para que existisse na polícia uma cultura de permissividade e da estruturação de métodos próprios, à margem do que estava previsto em lei. Os melhores policiais, eram aqueles considerados os mais violentos: os mais corajosos e que transitavam por todos os lugares sempre acompanhados de seus fieis escudeiros. Onde chegavam eram recepcionados com cerimônias, e muitos privilégios. De forma que os espaços por eles freqüentados, tinham sempre uma segurança extra! Eles podiam tudo e quem os acolhiam tinham proteção diferenciada. A cena do corpo no chão, coberto por um jornal e já em estado de putrefação, parece algo irreal e de fato fictício, mas de novo, minha memória trouxe lembranças de muitos momentos vividos, estando do outro lado da linha telefônica, em uma delegacia ou mesmo no IML. Por motivos vários, corpos ficavam expostos, à espera das autoridades policiais que por falta de equipamentos, de pessoal, ou mesmo por negligência demoravam uma eternidade para chegarem no local do crime e proceder ao trabalho de perícia e recolhimento do corpo. Cenas tão comuns que a própria população, como o frentista do filme, via como normal, em que pese o personagem do agente secreto ter se assustado. A identificação com o filme é imediata. Kleber foi genial e conseguiu nos afetar, nos fez sentir parte da história, das situações cotidianas, tragicômicas tão nossas, tão brasileiras. Situações retratadas no filme, que cabem nas histórias de cada um de nós. Surpreendente foi também o desfecho do filme, quando a pesquisadora preocupada em preservar os documentos e a memória referentes ao professor, procura seu filho, um jovem médico, e encontra uma pessoa amável, mas distante da história vivida pelo seu pai. Fica claro então que o vínculo com o passado e o pai se restringia à lembrança de ter esperado pelo pai e ele não aparecer para buscá-lo. Seguia a vida, praticando o seu ofício sem a pretensão de fazer justiça e resguardar a memória dos seus entes queridos! Quando Wagner Moura, ao receber o troféu Globo de Ouro por seu trabalho em “O agente secreto”, diz: “Se traumas podem ser passados entre gerações valores também podem”, ele dá a verdadeira dimensão de como a vida é. Muita gente que hoje, órfã da ditadura militar, desconhece a história e o papel de seus pais é porque este direito foi tirado deles. Há uma lacuna grande entre o período da ditadura e a abertura política, muita coisa não foi esclarecida e muitos desaparecidos se tornaram assassinos de si próprios. A falta de reparação e contextualização histórico-política ainda hoje faz muitos acreditarem que os militares e a ditadura foram necessárias e contribuíram para o desenvolvimento do país. “O Agente Secreto”, assim como “Ainda estou aqui” são filmes que expõem de forma simples, mas compreensível, a tragédia que este período provocou no país em todos os aspectos, inclusive na vida e na formação das gerações pós-ditadura militar. São abordagens necessárias, atuais, que ajudam a abrir a cabeça das pessoas sobre um período difícil e pouco conhecido por boa parte dos brasileiros e brasileiras. Parafraseando Wagner Moura, precisamos de mais filmes sobre a ditadura, para conhecermos nossa história, sem meios termos, sem meias verdades! Conhece-la, fazer memória, não esquecer para não repeti-la! * Para a Agência Informativa Pulsar Brasil https://agenciapulsarbrasil.org/artigo-o-agente-secreto-um-espelho-onde-encontrar-boa-parte-da-nossa-historia/

sexta-feira, 16 de maio de 2025

“Adolescência” e a des (construção) da identidade

“Adolescência” e a des (construção) da identidade Por Geralda Cunha* A notícia recente de que uma criança de 08 anos morreu depois de participar de um desafio pela internet, inalando desodorante, veio somar a uma onda crescente de casos envolvendo crianças e adolescentes inseridas no mundo virtual, que terminam de forma trágica. Lidar com a vida real Certamente isto explica o sucesso da minissérie britânica da Netflix, Adolescência. Em quatro capítulos a história de um típico adolescente, que se vê envolvido na morte de uma colega de escola, desnuda características dos adolescentes, já conhecidas da nossa sociedade: Todos conectados no mundo virtual, geralmente trancados em seus quartos, envoltos em jogos eletrônicos por horas; dificuldades de lidarem com a vida real; não lidam com frustrações; envoltos em casos de bullying, misógina e atitudes que não prevê o respeito ao outro; geralmente são crianças e adolescentes com pouca ou nenhuma convivência social. Os pais, costumeiramente se vêem absorvidos com o trabalho e enxergam a realidade dos filhos trancados nos quartos com um celular ou um computador, como uma forma de protegê-los dos perigos externos. O sentido da vida O avanço tecnológico e as mudanças sociais do mundo pós-moderno em que estamos inseridos são aspectos explorados por dois estudiosos, que tentam explicar o modo de vida das pessoas e em especial dos adolescentes. O alemão Siegfried Kracauer, já no início da década de 1920, chamava a atenção para transformação da sociedade moderna e a perda de sentido da vida. Em sua análise, as pessoas com mais acesso aos bens materiais e culturais, se tornavam mais solitárias! Já o antropólogo francês David Le Breton, em pesquisa que data de 2018, analisou o comportamento de risco, em específico do adolescente. Para ele, muitos internautas, e particularmente os adolescentes, concentram-se em seu avatar como um alter ego mais vivo do que eles, e experimentam através dele, formas de sociabilidade, de sexualidade que na vida real ainda os assustam. E afirma: – Sim, é mais fácil ser virtualmente, do que ser na vida real! A saída é coletiva De acordo com Kracauer e Breton, a sociedade pós-moderna e o avanço tecnológico promoveram pessoas mais individualistas, solitárias, sem vínculos afetivos e consequentemente sem identidade. Tais reflexões servem para que nós mães, pais, educadores e educadoras vejamos para além dos problemas pontuais recorrentes e suas consequências na educação de nossos filhos. É contraditório nos dias de hoje pensar a família como necessária, a primeira responsável por criar vínculo social, inserida em um grupo, com histórias, raízes, identidade se, por outro lado, os “provedores” desta família se veem diante da exigência de um estilo de vida, baseado no consumo, nas exigências do mercado e que não os possibilita interagir, dialogar, nem conviver para criar vínculos sociais com seus filhos. Quais são os vínculos que temos com nossos filhos? Quem são os nossos filhos? Pessoas com identidades próprias? Ou seres que projetam em um “avatar” seus sonhos e expectativas? Ou ainda, “zumbis” que caminham para lugar nenhum?

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Dicionário biográfico reúne histórias de 100 mulheres afrodiaspóricas que ajudaram a construir o Brasil

Em celebração ao Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, que será comemorado no dia 25 de julho, a editora Tempestiva disponibilizou, em versão eletrônica, o Dicionário Biográfico: Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas. Organizado pelas professoras e pesquisadoras Thaís Alves Marinho e Rosinalda Corrêa da Silva Simoni, o dicionário foi lançado no final em dezembro de 2023 durante o 1º Simpósio Internacional sobre Histórias Entrelaçadas (SIHE), o 1º Simpósio Internacional da Rede Latino-Americana e Caribenha sobre Feminismos de Terreiros (Relfet), a 18ª Semana Científica de História da PUC Goiás e o 7º Seminário das Linhas de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás. Segundo as organizadoras, a ideia nasceu da necessidade de dar visibilidade às trajetórias de mulheres afrodiaspóricas que, ao longo dos séculos, contribuíram para a construção do Brasil. Foi observando o fenômeno social, nomeado pelas pesquisadoras de “feminismos de terreiros”, que elas elaboraram o projeto com o objetivo de documentar as histórias de cem mulheres que viveram processos de rupturas, continuidades e adaptações provenientes do Atlântico Negro. A partir da ideia inicial, as pesquisadoras convidaram outras mulheres, com acúmulo e domínio na temática proposta, para escreverem as histórias reais de mulheres invisibilizadas pelas desigualdades sociais na linha histórica do Brasil. A seleção dos verbetes e das mulheres biografadas foi feita, portanto, com base na especialidade das autoras colaboradoras, considerando a relevância política, cultural, religiosa e social das personagens históricas para suas comunidades. As organizadoras reiteram que grande parte das autoras são mulheres negras, cujas próprias trajetórias refletem nuances de racismo e sexismo, mas também resiliência e empoderamento. A participação masculina no livro foi condicionada à coautoria com uma mulher, visando superar a ocultação e silenciamento histórico das mulheres afrodiaspóricas. O projeto contou com o apoio da Rede Latino-Americana e Caribenha de pesquisas sobre Feminismos de Terreiros (Relfet), da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), da Associação Nacional de História seção Goiás (ANPUH-GO), do GT de Gênero da ANPUH Nacional e do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Leitura necessária para todas as pessoas que queiram aprofundar seus conhecimentos sobre a vida de mulheres que superaram o preconceito de gênero, etnia, condição social e que, através das lutas cotidianas, ratificaram suas identidades e fizeram de suas existências a razão maior da defesa de seu povo, o dicionário oferece a oportunidade de conhecer mulheres de todos os rincões de nosso país. Muitas encantadas, outras que continuam entre nós vivas, atentas e fortes! Acesse o Dicionário Biográfico: Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas. FLUP A 2ª edição do dicionário será lançado nos dias 10 e 15 de novembro de 2024, durante a Festa Literária das Periferias – FLUP 2024, que será realizada no Circo Voador, Rio de Janeiro, homenageando a historiadora Beatriz Nascimento. O evento terá patrocínio da Fundação Roberto Marinho, Editora Malês e Fundação Ford. Desta vez, além da edição eletrônica, haverá a versão física. As autoras dos verbetes receberão uma cópia impressa durante o lançamento no Rio de Janeiro. A professora Nubia Regina Moreira, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, autora do verbete sobre a história da professora Edna Ribeiro, baiana de Vitória da Conquista, celebrou a publicação, com um depoimento potente, afirmando que o livro é “um ato de insurgência tecido pela Relfet, onde ficam e ficarão registradas as escrevivências das mulheres negras em e na diáspora negra”. “Biografar mulheres negras é um ato de coragem político-epistemológico. É um exercício de escavação das vidas de mulheres que transformaram o cotidiano para si e para as suas comunidades. Como todo exercício de escavação foi preciso unir pontas, fazer redes e apostar que através dos vestígios documentais, das conversas, das imagens, das músicas, das rasuras nos livros, e dos sinais arqueológicos fosse possível produzir um Dicionário de Mulheres Afrodiásporicas. Fruto desse esforço se deve ao fato de que as histórias das mulheres negras estão em curso e é a partir de mãos de outras mulheres negras que elas estão sendo escritas e publicadas”, concluiu. Os 2º e 3º volumes do dicionário biográfico, com histórias de mais 200 mulheres, de acordo com Rosinalda Simoni, já está em fase de finalização e tem previsão de lançamento para o ano de 2025. Organizadoras Thais Alves Marinho – Fez estágio pós-doutoral em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e em História na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professora dos Programas de Pós-Graduação em História (PPGHIST) e em Ciências da Religião (PPGCR) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Membra cofundadora da Rede Latino-Americana de Pesquisas sobre Feminismos de Terreiros (Relfet). Líder do Grupo de Pesquisa Memória Social e Subjetividade. E-mail: thais_marinho@hotmail.com. Rosinalda Corrêa da Silva Simoni – Fez estágio pós-doutoral em História na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Doutora em Ciências da Religião pela PUC – GO. Mestre em Gestão do Patrimônio Cultural também pela PUC – GO. Graduada em História pela UEG. Membro do Grupo de Mulheres Negras Malunga e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). Diretora Fundadora da empresa Tekohá Pesquisas Patrimoniais. Email: rosinegra@gmail.com. Geralda Cunha é radialista, jornalista, mestra em Educação, ativista pelos Direitos Humanos das Mulheres e Direito à Comunicação e colaboradora da Agência Pulsar e escreveu o verbete sobre a ginasta Daiane dos Santos. Edição: Filipe Cabral

terça-feira, 30 de abril de 2024

Humanidade Baixa

“O planeta ficou doente porque está com a humanidade baixa!” (Mafalda) Há muito tempo venho refletindo sobre as nossas atitudes em relação as misérias e tragédias humanas do cotidiano. A indiferença se tornou tão comum, que não conseguia conceituar as cenas, as situações envolvendo os seres humanos diante das mazelas sociais. Ao me deparar com a tirinha da Mafalda - personagem do cartunista argentino Quino - nas redes sociais e a frase que ilustrava a imagem, a qual usei para dar início a este artigo, entendi o significado das situações que rotineiramente protagonizamos e presenciamos. Cada vez mais as cenas de pessoas vivendo em condições subumanas como as pessoas em situação de rua, mendigos, crianças trabalhando em sinaleiros, usuários de drogas em espaços públicos perambulando como zumbis, pessoas idosas, deficientes físicos em dificuldades, são naturalizadas e invisibilizadas. É como se fosse normal a convivência com estas situações. Não nos sensibilizamos e nem nos incomoda ver as condições de sofrimento pelas quais estas pessoas vivem. Estando dentro de um carro com os vidros fechados, assistimos indiferentes a mais um pedido de ajuda, ou a venda de doces ou outros tipos de mercadoria. Agimos como se não tivesse ninguém a nossa frente ou do nosso lado. Nosso olhar perdeu a capacidade de enxergar o que aparentemente não nos diz respeito! Chegamos ao cúmulo da indiferença com o sofrimento dos outros, ou com a condição de pobreza e miséria vivida pelo nosso próximo, que fazemos coro as vozes insensíveis e que criticam quem se sensibiliza e colabora para minimizar o sofrimento desta parcela da sociedade. Conseguem marginalizar ainda mais os empobrecidos e já marginalizados pela sociedade, aumentando o fosso da desigualdade e negligenciando o fato de que a falta de políticas públicas, de educação, de trabalho digno, de políticas de segurança alimentar são fatores que empurram as pessoas para esta condição desumana, subumana. E assim, o nosso olhar anestesiado, a nossa conduta negacionista da realidade vão moldando uma sociedade que nega a própria humanidade preconizada pelo líder supremo do cristianismo. Está preocupada demais em defender verdades absolutas e colocá-las acima da vida humana. Cada vez mais se distancia do que nos faz diferentes dos outros primatas, a nossa humanidade! A frieza com que agimos frente a exterminação dos povos originários, ao genocídio de crianças palestinas, do povo afegão, com a violência e morte de mulheres mundo afora, com a violência e morte de pessoas lgbtqiapn+, com a fome, as guerras fomentadas pelo comércio de armas e o tráfico de pessoas. A ganância cega que empurra o nosso planeta para um caminho sem volta dá a dimensão do quanto às pessoas estão desumanizadas, a mercê daqueles que usam o poder em desfavor da Vida! A medicina nos ensina que adoecemos quando a nossa imunidade baixa. De fato, Mafalda tem razão, quando lembra que o nosso planeta está doente porque nossa humanidade está baixa! Humanidade baixa Geralda Cunha Radialista, jornalista, mestra em educação e ativista em Direitos Humanos

Sororidade

Vamos falar de um termo que se tornou muito comum quando se trata de movimento feminista: Sororidade. Afinal o que significa? O termo vem do latim Soror que significa irmã. Qual a importância da irmandade entre as mulheres? De exercitar a empatia, de se colocar no lugar da outra e entender sua dor, seus dilemas, suas vulnerabilidades numa sociedade estruturada no patriarcado e no machismo? A irmandade baseada na sororidade parte do princípio da capacidade de uma mulher compreender a outra sem pré-julgamentos, colaborando para a superação dos estereótipos preconceituosos criados por esta sociedade que teima em naturalizar as violências sofridas, sejam elas psicológicas ou físicas, que reproduz valores machistas que submetem nós mulheres, a todo tipo de violência. O patriarcado nos deixou um legado de construção social em que os homens foram educados para a competição no mundo dos negócios, da política, para o mundo público, enquanto as mulheres foram e ainda são educadas para o mundo da casa e da submissão ao homem. Neste modelo social, as mulheres vêem as outras como opositoras, concorrentes! Esta cultura é extremamente tóxica e faz com que ainda hoje, após tantas lutas e conquistas, nos vemos em conflito com outras mulheres, e o que é pior, reproduzindo estereótipos construídos pelo patriarcado, ainda que este modelo reforce a conduta de um agressor, um violentador, um autêntico machista, misógino, que não respeita as mulheres e as vê como objeto, propriedade e extensão sua! Os casos recentes envolvendo personalidades do mundo do futebol expuseram esta visão machista de forma assustadora! Inúmeras pessoas, inclusive mulheres, saíram na defesa do agressor famoso, utilizando os argumentos que reforçam os preconceitos contra as mulheres, desacreditando-as, não levando em conta a situação de fragilidade que se encontra a mulher vítima da violência sexual! Felizmente um movimento contrário, que garante os direitos das mulheres, criou um protocolo que identifica mulheres em condição de vulnerabilidade, como aconteceu no caso Daniel Alves. A atitude do segurança da boate local, que tinha conhecimento do protocolo e o colocou em prática, foi fundamental, possibilitando a prisão do jogador e os desdobramentos do caso, que é de conhecimento público. Ao refletir sobre a prática da sororidade, convido minhas irmãs a se espelharem nas histórias de nossas ancestrais benzedeiras, parteiras, nossas avós, mães, tias e irmãs que em um tempo não muito distante, e ainda hoje muito comum na região Norte do Brasil, onde o acesso ao serviço médico é muito difícil, se constituíam e constitui na rede de apoio de outras mulheres que cuidavam e cuidam umas das outras. A superação do patriarcado e a conseqüente superação da violência contra as mulheres, dos altos números de feminicídios e estupro, passa por esta reconexão com a história das nossas ancestrais. É fundamental praticarmos a empatia, a sororidade umas com as outras. Qualquer que seja o nosso lugar: de mulheres negras, indígenas, brancas, crianças, idosas, ricas, pobres, intelectuais, de periferia, ou que ocupam espaço de poder! A sororidade só tem sentido se exercida em sua plenitude, acima de todas as diferenças. Sororidade seletiva não é sororidade!

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Ressonância...

 Ressonância...

Sábado, 10h40. Pontualmente estava na clínica como agendado. Formulário com um pequeno texto explicativo sobre o que consiste o exame, seguido de um questionário que buscava saber mais sobre minha condição física. Cirurgias, uso ou não de próteses. Objetos que sofram efeitos do campo magnético.  Coisas que ajudam a tencionar mais  o que eu iria viver durante os mais de 60 minutos naquela sala branca, com teto cheinho de luzes, como se fosse um céu estrelado, de fundo branco, dentro daquele tubo que nos remete aos filmes de ficção científica.

Concluída a fase de coleta de dados, preenchimento de formulário e questionário, emissão de guias, uma jovem com uniforme verde, me chama pelo nome, entrega um pacote com uma camisola para eu me trocar, pede pra eu tirar tudo o que era metal, e depois, mais algumas perguntas. A ressonância daquela manhã não era a minha primeira, e sim, este era o principal motivo de eu estar ansiosa. O fato de ficar deitada com o corpo dentro de um tubo, com um espaço de menos de 20 centímetros entre o nariz e a parte superior da cápsula, sem condições de se mexer, submetida a sons num período de mais ou menos  uma hora, não é confortável. É assustador, causa pânico.

Bem, sabendo de tudo isto e compartilhando experiências com outras pessoas, o que me restou foi  controlar a minha ansiedade, tentando manter o cérebro focado em outras coisas que não fosse desejar apertar a campainha, que os técnicos colocam em uma das mãos, para acioná-la em caso de necessidade. Já aconteceu de no primeiro minuto, em uma das ressonâncias, eu apertar, pedir para sair e não voltar para dar continuidade ao exame. Não queria passar por isto novamente, até porque interromper o exame significaria ter que enfrentar todo o processo novamente, que não é simples, nem fácil!

Começou. Os técnicos por microfone reforçam a necessidade de  me manter imóvel, sem mexer. Seriam três exames, iniciariam por um, cujo objetivo era investigar possível esclerose. Havia explicado que em um determinado momento eu deveria colocar na boca em tempos diferentes, uma seringa pequena, outra média e outra grande, segurando-as com a boca, sem movimentar língua, sem engolir saliva, enfim...aff! E dai-lhe barulho. Era uma playlist completa. De fundo e antes mesmo do início dos exames, a máquina já emitia um barulho, que mais parecia um som feito por DJ em festa trance. Tistum, tistum, tistum, num compasso simples, que permaneceria como Back Ground ou BG o tempo todo de duração dos exames. Depois foi introduzido um outro som, com outra batida, um martelo? Sim, o barulho era de som de um martelo metalizado. Uma, duas, três...sessenta vezes. Parou! Quantos minutos havia se passado? Dez, quinze? Quando dariam o comando para o momento das seringas? De repente, a voz do técnico: - D. Geralda? Tudo bem? A senhora está se movimentando? Engulindo? Eu disse que sim, estava engolindo saliva, secreções...E o técnico: - não pode D. Geralda, Teremos que começar tudo de novo! Fiquei sem acreditar... Jesus, será que vou conseguir concluir? Começar de novo?

Tudo bem. Vamos lá, eu vou conseguir. Vou tentar me ocupar dos barulhos. Quantas vezes cada som era repetido? O que significava cada tipo de som ali? O que eles mediam? Que imagem meu cérebro ia formando diante dos diferentes sons? E o volume? Sim, era num volume alto, digno de um show de rock. Era isso! Aqueles sons podem perfeitamente servir para compor um arranjo de rock. As imagens certamente dignas de um cenário psicodélico, que o digam os profissionais das projeções nos shows. O momento das seringas chegou, felizmente! Sinal de que estava dando tudo certo. Primeiro exame encerrado.  Mais barulhos – sons, intercalados de pequenos intervalos de silêncio. Minha sina naquela maca ainda não tinha chegado ao fim. Bora contar a sequência de batidas. Um, dois... trinta,  barulho ensurdecedor, cinqüenta, será? Esqueci...melhor pensar na história que me propus a criar para o Rafinha. O menino dos olhos azuis, da terra dos tubarões. Ok, mas não me vinha inspiração. Quanto tempo será que falta? Rayi Kena deve estar no final do vôo para Salvador. O barulho agora era diferente. O tempo está mais compassado, será que este som é a última etapa do exame? Trinta, trinta e um, cinqüenta, cinqüenta e nove, sessenta, sessenta e um... eu que o tempo todo mantive os olhos fechados, resolvi abri-los. Pela primeira vez consegui visualizar o tubo e a grade por cima da minha cabeça, sem sentir pânico. Quanto tempo será que ainda falta? Sessenta e quatro... de repente, silêncio. Um vácuo. Será que ainda tem mais alguma coisa? D. Geralda, tudo bem? Terminamos viu? Correu tudo bem. Gente, que sensação estranha... Acabou? Eu posso sair?

A jovem de uniforme verde entra na sala, aperta o botão da máquina que movimenta, me trazendo para fora do tubo. Ela me ajuda a sentar. Peço para esperar eu me recompor antes de me levantar, já que o movimento de levantar a cabeça, me causa tonturas. Levanto, olho para minha irmã que se manteve o tempo todo na sala, sentada, me acompanhando - o tempo foi tão longo, que ela estava ansiosa para sair dali e procurar um banheiro para fazer xixi. A sensação de alívio era tão grande, que me invadiu uma alegria e uma despreocupação com o momento seguinte, que há muito eu não tinha. Já sei o que fazer, quero bater perna e tomar uma cerveja!

Ressoa a vida, ressoa...

Imagens: RD Xavier(Internet)

Distopia na administração de Goiânia

                                                                  

Distopia na administração de Goiânia

Geralda Cunha – É mestra em Educação pela UFG. Assessora de Comunicação e Ativista pelos Direitos Humanos

            Goiânia sofre com o fenômeno da distopia que acometeu o nosso país nos últimos tempos. A distopia é um pensamento filosófico caracterizada por uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos, o termo surge como o oposto de utopia. Na literatura e no cinema são muitos os exemplos de sociedades distópicas. Quem não se lembra do livro e filme do mesmo nome 1984? Matrix, Mad Max e o brasileiro Bacurau, entre outros? O goiano José J. Veiga abordou o tema no livro A hora dos Ruminantes, de 1967.

             A administração da nossa capital tem sido um bom exemplo de administração distópica A população tem sofrido com esta polêmica e confusa gestão. Quando o assunto é Educação, a  Educação Infantil (uma das etapas prevista na LDB 9394/96 e considerada fundamental na formação do indivíduo),  vem sendo negligenciada ao longo dos anos nas administrações municipais da nossa capital. Ano após ano as demandas não são todas atendidas e crianças, que deveriam estar nos Centros Municipais de Educação Infantil – Cmeis estão fora deles, enquanto mães e pais precisam recorrer ao Ministério Público para terem acesso às vagas que lhes são de direito! Não existe um planejamento para suprir esta demanda e dar dignidade às crianças e suas famílias. Eis que o gestor tira da cartola a brilhante ideia e vai defendê-la no plenário da Câmara Municipal de Goiânia: fechar 50 bibliotecas e salas de leitura, sob a alegação de que os livros causam sinusite! É inacreditável tal argumento! Desconhecimento? Ignorância? Ou má intenção?

            Parece atuam baseados naquela velha máxima: “a gente propõe, se colar, colou!”  Um verdadeiro acinte a nossa inteligência. Agem com dolo, gerindo mal o dinheiro público, na certeza de que vão aceitar  “descobrir um santo, para cobrir outro”, como se não houvesse leis que exigem que as escolas cumpram requisitos básicos para o funcionamento e um deles é a existência de bibliotecas para que as crianças, alunas e alunos tenham acesso aos recursos da leitura, do conhecimento! Também estão previstos que as escolas façam limpezas rotineiras nas caixas d’águas, que tenham estrutura adequada para cadeirantes, proteção nas escadas, rampas, espaços de convivência, salas adequadas ao número de crianças e alunos, de tal forma que é fácil deduzir que esteja previsto profissionis da limpeza que proporcionem ambientes limpos e arejados, impedindo todo o tipo de sujeira que possam causar doenças como a referida pelo gestor!

            Felizmente as autoridades competentes impediram a tentativa de fechamento das bibliotecas de forma irresponsável e autoritária. Infelizmente estamos sendo atropelados por uma onda de gestores que chegaram ao poder e desconhecem como funciona a administração pública. Impõem medidas e quando não conseguem o intento, usam das prerrogativas para “convencer” parlamentares a compactuar com ações que não atendem ao bem comum, pelo contrário, deixam uma camada de fumaça no ar, na tentativa de enganar o povo, não prestando contas, sem transparência, invertendo a lógica de um governo democrático, sendo um governo de e para privilegiados!