terça-feira, 30 de abril de 2024
Humanidade Baixa
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
Sororidade
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
sexta-feira, 14 de julho de 2023
Ressonância...
Sábado, 10h40. Pontualmente estava na clínica como agendado. Formulário com um pequeno texto explicativo sobre o que consiste o exame, seguido de um questionário que buscava saber mais sobre minha condição física. Cirurgias, uso ou não de próteses. Objetos que sofram efeitos do campo magnético. Coisas que ajudam a tencionar mais o que eu iria viver durante os mais de 60 minutos naquela sala branca, com teto cheinho de luzes, como se fosse um céu estrelado, de fundo branco, dentro daquele tubo que nos remete aos filmes de ficção científica.
Concluída a fase de coleta de dados, preenchimento de formulário e questionário, emissão de guias, uma jovem com uniforme verde, me chama pelo nome, entrega um pacote com uma camisola para eu me trocar, pede pra eu tirar tudo o que era metal, e depois, mais algumas perguntas. A ressonância daquela manhã não era a minha primeira, e sim, este era o principal motivo de eu estar ansiosa. O fato de ficar deitada com o corpo dentro de um tubo, com um espaço de menos de 20 centímetros entre o nariz e a parte superior da cápsula, sem condições de se mexer, submetida a sons num período de mais ou menos uma hora, não é confortável. É assustador, causa pânico.
Bem, sabendo de tudo isto e compartilhando experiências com outras pessoas, o que me restou foi controlar a minha ansiedade, tentando manter o cérebro focado em outras coisas que não fosse desejar apertar a campainha, que os técnicos colocam em uma das mãos, para acioná-la em caso de necessidade. Já aconteceu de no primeiro minuto, em uma das ressonâncias, eu apertar, pedir para sair e não voltar para dar continuidade ao exame. Não queria passar por isto novamente, até porque interromper o exame significaria ter que enfrentar todo o processo novamente, que não é simples, nem fácil!
Começou. Os técnicos por microfone reforçam a necessidade de me manter imóvel, sem mexer. Seriam três exames, iniciariam por um, cujo objetivo era investigar possível esclerose. Havia explicado que em um determinado momento eu deveria colocar na boca em tempos diferentes, uma seringa pequena, outra média e outra grande, segurando-as com a boca, sem movimentar língua, sem engolir saliva, enfim...aff! E dai-lhe barulho. Era uma playlist completa. De fundo e antes mesmo do início dos exames, a máquina já emitia um barulho, que mais parecia um som feito por DJ em festa trance. Tistum, tistum, tistum, num compasso simples, que permaneceria como Back Ground ou BG o tempo todo de duração dos exames. Depois foi introduzido um outro som, com outra batida, um martelo? Sim, o barulho era de som de um martelo metalizado. Uma, duas, três...sessenta vezes. Parou! Quantos minutos havia se passado? Dez, quinze? Quando dariam o comando para o momento das seringas? De repente, a voz do técnico: - D. Geralda? Tudo bem? A senhora está se movimentando? Engulindo? Eu disse que sim, estava engolindo saliva, secreções...E o técnico: - não pode D. Geralda, Teremos que começar tudo de novo! Fiquei sem acreditar... Jesus, será que vou conseguir concluir? Começar de novo?
Tudo bem. Vamos lá, eu vou conseguir. Vou tentar me ocupar dos barulhos. Quantas vezes cada som era repetido? O que significava cada tipo de som ali? O que eles mediam? Que imagem meu cérebro ia formando diante dos diferentes sons? E o volume? Sim, era num volume alto, digno de um show de rock. Era isso! Aqueles sons podem perfeitamente servir para compor um arranjo de rock. As imagens certamente dignas de um cenário psicodélico, que o digam os profissionais das projeções nos shows. O momento das seringas chegou, felizmente! Sinal de que estava dando tudo certo. Primeiro exame encerrado. Mais barulhos – sons, intercalados de pequenos intervalos de silêncio. Minha sina naquela maca ainda não tinha chegado ao fim. Bora contar a sequência de batidas. Um, dois... trinta, barulho ensurdecedor, cinqüenta, será? Esqueci...melhor pensar na história que me propus a criar para o Rafinha. O menino dos olhos azuis, da terra dos tubarões. Ok, mas não me vinha inspiração. Quanto tempo será que falta? Rayi Kena deve estar no final do vôo para Salvador. O barulho agora era diferente. O tempo está mais compassado, será que este som é a última etapa do exame? Trinta, trinta e um, cinqüenta, cinqüenta e nove, sessenta, sessenta e um... eu que o tempo todo mantive os olhos fechados, resolvi abri-los. Pela primeira vez consegui visualizar o tubo e a grade por cima da minha cabeça, sem sentir pânico. Quanto tempo será que ainda falta? Sessenta e quatro... de repente, silêncio. Um vácuo. Será que ainda tem mais alguma coisa? D. Geralda, tudo bem? Terminamos viu? Correu tudo bem. Gente, que sensação estranha... Acabou? Eu posso sair?
A jovem de uniforme verde entra na sala, aperta o botão da máquina que movimenta, me trazendo para fora do tubo. Ela me ajuda a sentar. Peço para esperar eu me recompor antes de me levantar, já que o movimento de levantar a cabeça, me causa tonturas. Levanto, olho para minha irmã que se manteve o tempo todo na sala, sentada, me acompanhando - o tempo foi tão longo, que ela estava ansiosa para sair dali e procurar um banheiro para fazer xixi. A sensação de alívio era tão grande, que me invadiu uma alegria e uma despreocupação com o momento seguinte, que há muito eu não tinha. Já sei o que fazer, quero bater perna e tomar uma cerveja!
Ressoa a vida, ressoa...
Imagens: RD Xavier(Internet)
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
Distopia na administração de Goiânia
Geralda Cunha – É
mestra em Educação pela UFG. Assessora de Comunicação e Ativista pelos Direitos
Humanos
Goiânia sofre com o fenômeno da distopia que acometeu o
nosso país nos últimos tempos. A distopia é um pensamento filosófico caracterizada
por uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios
extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos, o
termo surge como o oposto de utopia. Na literatura e no cinema são muitos os exemplos de sociedades
distópicas. Quem não se lembra do livro e filme do mesmo nome 1984? Matrix, Mad
Max e o brasileiro Bacurau, entre outros? O goiano José J. Veiga abordou o tema
no livro A hora dos Ruminantes, de 1967.
A administração da nossa capital tem sido um
bom exemplo de administração distópica A população tem sofrido com esta polêmica
e confusa gestão. Quando o assunto é Educação, a Educação Infantil (uma das etapas prevista na LDB
9394/96 e considerada fundamental na formação do indivíduo), vem sendo negligenciada ao longo dos anos nas
administrações municipais da nossa capital. Ano após ano as demandas não são todas
atendidas e crianças, que deveriam estar nos Centros Municipais de Educação
Infantil – Cmeis estão fora deles, enquanto mães e pais precisam recorrer ao
Ministério Público para terem acesso às vagas que lhes são de direito! Não
existe um planejamento para suprir esta demanda e dar dignidade às crianças e
suas famílias. Eis que o gestor tira da cartola a brilhante ideia e vai defendê-la
no plenário da Câmara Municipal de Goiânia: fechar 50 bibliotecas e salas de
leitura, sob a alegação de que os livros causam sinusite! É inacreditável tal
argumento! Desconhecimento? Ignorância? Ou má intenção?
Parece atuam
baseados naquela velha máxima: “a gente propõe, se colar, colou!” Um verdadeiro acinte a nossa inteligência. Agem
com dolo, gerindo mal o dinheiro público, na certeza de que vão aceitar “descobrir um santo, para cobrir outro”, como
se não houvesse leis que exigem que as escolas cumpram requisitos básicos para o
funcionamento e um deles é a existência de bibliotecas para que as crianças,
alunas e alunos tenham acesso aos recursos da leitura, do conhecimento! Também
estão previstos que as escolas façam limpezas rotineiras nas caixas d’águas,
que tenham estrutura adequada para cadeirantes, proteção nas escadas, rampas,
espaços de convivência, salas adequadas ao número de crianças e alunos, de tal
forma que é fácil deduzir que esteja previsto profissionis da limpeza que
proporcionem ambientes limpos e arejados, impedindo todo o tipo de sujeira que
possam causar doenças como a referida pelo gestor!
Felizmente
as autoridades competentes impediram a tentativa de fechamento das bibliotecas
de forma irresponsável e autoritária. Infelizmente estamos sendo atropelados
por uma onda de gestores que chegaram ao poder e desconhecem como funciona a
administração pública. Impõem medidas e quando não conseguem o intento, usam
das prerrogativas para “convencer” parlamentares a compactuar com ações que não
atendem ao bem comum, pelo contrário, deixam uma camada de fumaça no ar, na
tentativa de enganar o povo, não prestando contas, sem transparência,
invertendo a lógica de um governo democrático, sendo um governo de e para privilegiados!
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
quinta-feira, 13 de julho de 2023
Dia mundial do Rock e os dez anos dos Boogarins - Por Geralda Cunha
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
Cancelamento nas redes sociais - jornal O Popular - 03/01/2022
Cancelamento nas Redes
Sociais
Geralda Cunha
Comunicadora Social, Educadora,
Policial Aposentada, Ativista na defesa dos Direitos Humanos
A dinâmica da
convivência pelas redes sociais nos apresentou um significado mais agressivo
para a palavra cancelamento. O que antes era um termo técnico para algo que
remetia a falhas burocráticas, hoje tem vários significados.
A “convivência” virtual
expôs um lado das pessoas que não conhecíamos, ainda que existisse e não é de
hoje. Cancela-se por qualquer coisa: de acordo com a comunicóloga e
pesquisadora em comportamento Clara Fagundes, as pessoas têm prazer em julgar
outras pessoas, em participar da ruína de outras pessoas, se elas forem
“vilãs”!
Recentemente entrou em
cartaz pela Netflix o filme “Não olhe pra cima”, com Leonardo Di Caprio, Meryl
Streep e Jennifer Lawrence, a comédia/catástrofe, é uma alegoria ao método de
fazer política segundo Steve Bennon, baseado na estética das aparências e na
potencialização da manipulação pelas redes sociais.
Não por acaso o
marqueteiro foi preso pelo FBI por fraudes e lavagem de dinheiro. Creio que a
fraude e o alinhamento do Estado com o capital financeiro são as principais metáforas do filme, que mostra as verdadeiras
faces de políticos importantes mundo
afora! Estão preocupados em “parecer ser”, no espaço das redes sociais. Essas
se tornaram as “ágoras” no mundo virtual. Nela se, vive se posiciona, se
acredita e se “cancela” de acordo com os interesses econômicos, políticos e
ideológicos.
No filme negligenciaram
(cancelaram) o fato real da colisão do meteoro com a terra. Aqui no nosso
quintal (Brasil) cancelaram e cancelam tudo o que não esteja de acordo com o
pensamento negacionista de um pretenso governo: crise sanitária, desmatamentos, desempregos,
inflação, preços em alta, vacina, enchentes, mortes! Investem e apostam em um
Brasil irreal, construído e fomentado por algoritmos, robôs e uma minoria
raivosa! Apostam no quanto pior, melhor! Apostam na eficiência das fakenews. Assim
como no filme, o que menos importa é a veracidade dos fatos, as fontes das
notícias e muito menos nas conseqüências que as falsas notícias provocam na
vida das pessoas. Promovem o CAOS.
Em 2022, ano eleitoral
carregado de expectativas e incertezas, inspiremos-nos em Paulo Freire e no
livro Educação como Prática da Liberdade (1967), que continua extremamente
atual: a partir da definição do que é transitividade crítica - que se
caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas - ele nos ensina a
substituir explicações mágicas por princípios causais, a despir-nos ao máximo
de preconceitos na análise dos problemas. A nos basear na prática do diálogo e
não da polêmica. A ser receptivo ao novo, não apenas porque novo e pela
não-recusa ao velho, só porque velho, mas pela aceitação de ambos, enquanto
válidos. E nos provoca a entender que assumir a transitividade crítica, implica
num retorno à matriz verdadeira da democracia. Neste universo, não cabe
cancelamento!
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
Polícia para quem?
A polícia brasileira do século XXI é considerada a mais violenta do mundo (Le Monde de 18 de junho de 2020), não conseguiu superar o ranço da ditadura militar e muito menos da cultura escravocrata. Persegue e criminaliza Preto, Pobre e Prostituta. Mesmo com as tentativas de modernização e mudança de cultura, a polícia truculenta persiste. Denúncias por todo o Brasil dão conta do que vivemos: execuções sumárias de jovens da periferia, mortes por “confronto”, ainda que as cenas dos crimes apontem para execução; jovem sendo algemado e conduzido, preso em garupa de moto! Em 2019 a polícia brasileira matou seis mil pessoas, cinco vezes mais que os EUA. Tais atitudes são endossadas por muitos cidadãos de bem, que pregam que “bandido bom é bandido morto”.
Nesta lógica de polícia, a população pobre, preta e periférica sempre estará em “atitude suspeita”. Denunciar, debater e enfrentar a polícia violenta é o caminho. A Defensoria Pública de São Paulo elaborou uma cartilha em que orienta os cidadãos a registrar a ação de policiais, como forma de fiscalizar e prevenir violações de direitos humanos. Outra medida adotada pelo governo de São Paulo foi a instalação de câmeras de vídeo e gravação nos fardamentos dos policiais, o que resultou na diminuição das mortes por intervenção policial em 54%, durante os meses de maio e junho deste ano. São medidas necessárias, em que pese saber que a superação do modelo de polícia vigente passa pela superação das desigualdades e das injustiças sociais.
Publicado no jornal O Popular de 10.12.2021
O Blog Comunicação, Educação e Feminismo é um espaço para reflexão a partir destas temáticas com o objetivo de contribuir na luta e nos desafios colocados para a nossa sociedade.



