quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!

Carta de Desagravo
Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!
Foto: Ivone Cunha

No Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Goiás é o segundo Estado brasileiro que mais teve homicídios de mulheres em 2014.

O homicídio cometido com requintes de crueldade contra mulheres por motivações de gênero, desde 2015, tornou-se crime hediondo com a promulgação da lei nº13. 104/2015, a lei do feminicídio. Na legislação, a violência doméstica e familiar e o menosprezo ou discriminação à condição de mulher são descritos como elementos de violência de gênero e integram o crime de feminicídio.

As Diretrizes Nacionais sobre feminicídio, lançado em 2016 pela ONU Mulheres Brasil e o Escritório das Nações Unidas, com o objetivo de incluir a perspectiva de gênero nos processos de investigação e julgamento de crimes de feminicídio, prevê como motivações de crimes baseadas em gênero, o sentimento de posse sobre a mulher, o controle sobre seu corpo, desejo e autonomia; a limitação da sua emancipação profissional, econômica, social ou intelectual; o tratamento da mulher como objeto sexual; e as manifestações de desprezo e ódio pela mulher e por sua condição de gênero.

No final do último mês, a tragédia da morte de Mayara Amaral nos deixou mais uma vez assustadas, indignadas, paralisadas diante de tamanha crueldade, da qual ela foi vítima. Foi o grito de sua irmã, Pauliane, através das redes sociais, que nos sacudiu e nos expôs o que acostumamos a ler nos jornais, quando se trata dos relatos de crimes em que as mulheres são vítimas. O tratamento dado pela imprensa demonstra o quanto o machismo está impregnado nos textos e narrativas jornalísticas.

A versão dada pela imprensa colabora para diminuir a culpa do criminoso e desqualificar a vítima, Mayara, quando omitem a palavra estupro, apesar de todas as evidências; quando hiper-sensualizam a imagem de Mayara, para falar sobre o “suspeito” e ainda quando deixam de mostrar o rosto da vítima, quando é para falar da musicista, desumanizando-a.

Tal constatação, infelizmente, demonstra como a imprensa/mídia acaba por corroborar e ser conivente com esta realidade perversa, em que milhares de mulheres têm suas vidas ceifadas.

A violência de gênero está presente nas mídias sociais. Da maneira como é abordada, acaba por se naturalizar no nosso dia-a-dia, nos nossos costumes, jornais, propagandas, e passa despercebida para grande parcela da população e formadores de opinião. A mulher mesmo sendo vítima, é desumanizada.

Quando jornais e revistas expõem a vida da vítima de forma parcial, fazendo juízo de valores, estão certamente relativizando a violência sofrida pela mulher, reforçando a separação: de um lado estão as mães, irmãs, mulheres – belas, recatadas e do lar, passíveis de desejo, admiração ou respeito, em contraposição às demais mulheres consideradas objeto, passível de uso, e portanto, fazem por merecer a violência, o ódio, a morte(1).

Enquanto os casos de violência contra a mulher forem naturalizados, os conceitos de força, domínio, desejo e submissão entre os sexos irão prevalecer. É preciso desenvolver entre os profissionais da comunicação uma consciência ética, de princípios que transponham e superem a cultura machista que violenta e mata.

Nós da Associação Mulheres na Comunicação, unidas a dezenas de outras instituições não governamentais, que lutam pelo direito à comunicação, pela comunicação de gênero, não-sexista, ratificamos nossos princípios e repudiamos todo o tratamento dado pela mídia que reforça o machismo e naturaliza a violência de gênero e o feminicídio.

Pela memória de Mayara Amaral!

Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!

Nenhuma a menos!

As queremos vivas!!!!

Geralda Ferraz – Radialista/ Assessora de Comunicação/ Esp. Assessoria de Comunicação/ Presidente da Associação Mulheres na Comunicação
Assinam:
Entidades:
Coletivo Mayara Amaral
Associação Mulheres na Comunicação
Rede de Mulheres em Comunicação
AMARC - Associação Mundial das Rádios Comunitárias
Movimento de Meninos e Meninas de Rua de Goiás / MMMR-GO
Sindsaude-GO
Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno
Frente de Mulheres de Movimentos do Cariri e Mulheres do MAIS
CPM/UBM-GO
UBM - União Brasileira de Mulheres
Faculdade de Informação e Comunicação / UFG
Centro Cultural Cara Vídeo
Consulta Popular
Centro de Estudos Bíblicos – CEBI
Centro Cultural Eldorado dos Carajás
Movimento Nacional da População de Rua
Movimento Camponês Popular
Pastoral da Juventude do Meio Popular
Irmandade Brasileira Justiça e Paz
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra
Levante Popular da Juventude
Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil
Comissão Brasileira de Justiça e Paz – CNBB
UNMP
Central de Movimentos Populares
Comissão Pastoral da Terra – Goiás
Central Única dos Trabalhadores do Estado de Goiás
Rádio Trabalhador
Associação dos Professores da PUC – Goiás
Grupo Feminista Oficina Mulher
ONG Mulher Negra Brasileira Thalita Monteiro Maia
SINT-IFESgo – Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação da UFG, IFG, IFGoiano e Ebserh
Pessoas:
Geralda da Cunha Teixeira Ferraz – Radialista / Programa Voz da Mulher/AMC
Bruna Porto – Filósofa – Programa Voz da Mulher /AMC
Ivone Cunha – Arteterapeuta – Programa Voz da Mulher / AMC
Michely Coutinho – Sindicalista
Mayani Gontijo – Assessora de Comunicação
Maria Inês Amarante. Docente da Unila - Foz do Iguaçu
Lígia Kloster Apel, Radialista, Amarc, Brasil
Mônica Barcellos Café - assistente social
Vilma de Fátima Machado (NDH e PPGIDH/UFG)
Dila Resende - Secretaria estadual do PCdoB GO
Andre Nascimento - UNEGRIO GO
Michele Cunha Franco (FCS e NDH)
Maria Ângela De Ambrosis Pinheiro
Joana Abreu Pereira de Oliveira - EMAC-UFG Renata Linhares - ESEFFEGO /UEG e Professora da SME
Natássia Duarte Garcia Leite de Oliveira. Professora da UFG/Emac.
Claudia Zanini, Professora da EMAC/UFG
Ivone Garcia Barbosa / NEPIEC/FE/UFG
Flavia Maria Cruvinel/ Profa. da EMAC/UFG Ionara Vieira Moura Rabelo, Presidenta Conselho Regional de Psicologia e Profa. Regional Goiás/ UFG
Silvana Rodrigues de Andrade - Profa EMAC/UFG
Janira Sodré Miranda - Comissão de Políticas de Igualdade Etnicorracial do IFGoias/ Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Africanidades-NEGRA.
Beth Fernandes - Presidente da Astral vice presidente do Conem e da CONATRAP
Roberto Nunes - jornalista/ Rádio Universitária
Denise Viola/ Rio de Janeiro /Radialista /AMARC Brasil
Taís Ladeira/ Brasília/ Jornalista / Amarc Brasil
Rose Castilhos / Rio Grande do Sul/ Jornalista Ilê Mulher
Celia Rodrigues/ Ceará/ Radialista
Prof.a. Ana Guiomar Rêgo Souza - Diretora e Presidente do Conselho Diretor da EMac
Carolina Skorupski - Assessora de Comunicação
Dra. Maria Aparecida Alves da Silva - Cida Alves, Psicóloga do Núcleo de Vigilância as Violências e Promoção da Saúde - SMS Goiânia, representante do CRP 09 Goiás e do blog Educar Sem Violência.
Prof. Magno Medeiros - FIC/NDH
Prof. Ricardo Barbosa de Lima - Programa Interdisciplinar de Pós-Graduacão em Direitos Humanos
Franscisneide Cunha - Radialista - Diretora dez Programação da Rádio Universitária
Profa. Lucia Rincón- PUC Goiás
Prof.a. Carolina Zafino Isidoro - PUC Goiás
Prof.a. Angelita Lima - Diretora da FIC
Prof.a. Noêmia Félix da Silva – PUC – Goiás
Wilmar Ferraz - Radialista/ produtor cinematográfico
Rosa Rodrigues – Radialista/ Rádio Comunitária Independência – Ceará
Laisy Moriere Cândida Assunção – Secretária Nacional de Mulheres do Partido dos Trabalhadores
Celso Araújo Filho – Terapeuta Holístico

Parlamentares:
Eduardo Suplicy - vereador - PT/SP
Adriana Accorsi – Deputada Estadual – PT-Goiás
Isaura Lemos - PC do B - Goiás
Jandira Feghali - Deputada Federal – PC do B – Rio de Janeiro
Jean Wyllys – Deputado Federal – Psol – Rio de Janeiro
Vanessa Grazziotin - Senadora - PC do B - Am


Referência Bibliográfica:

*(1) – Cultura do Estupro, artigo Observatório da Imprensa, Alexandre Marini, 31/05/2016.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Lá vem a morte significa trabalho

Foto que ilustra matéria da Rolling Stone  de 07.06.2017 "Boogarins
lança novo disco surpresa

Plateia do show dos Boogarins na cidade de Chigado-EUA - junho/2017
Como mãe tive o privilégio de acompanhar parte do trabalho de feitura deste terceiro disco dos Boogarins​. Em uma das nossas conversas, disse ao Benke Ferraz​ que havia gostado demais da faixa "Corredor Polonês". Me identifiquei de pronto com o título da música, porque lembrei da minha adolescência e de um episódio que me fez conhecer o significado da palavra "lealdade" *.

Ouvi a música várias vezes, sentindo o som que ressalta o tum tum  grave e ritmado do baixo, o tin tin dos pratos da bateria e o tan tan de uma das guitarras. Ao fundo,  solo da 2ª guitarra. A voz inconfundível do Dinho e uma sensação boa de querer caminhar, voar, levitar! Coisa louca. Coisa linda.

Conhecer a história estes "mininus",  como costumo chamá-los,  só nos enchem de orgulho! Gosto de pensar que nossos filhos são uma versão aperfeiçoada da nossa existência. Admiro o espírito desbravador e a forma como conduzem a banda e a carreira. Contra todos os prognósticos, meio que como a história dos sapinhos surdos, que  sem escutar aqueles que achavam que seria impossível alcançar seus objetivos, eles persistiram e chegaram ao topo.  Assim tem sido os Boogarins, tem feito história. Uma história bonita cheia de ineditismo em todos os aspectos.

Orgulhosa como toda "mãe" coruja, mas também porque sendo comunicadora/radialista/jornalista/assessora de comunicação, buscando mostrar e dar visibilidade a segmentos sociais invisibilizados, me pego admirando a capacidade que a banda tem de interagir com esta plataforma digital/ multimídia, fazendo muito, a partir das ferramentas disponíveis, com os recursos possíveis, sem nenhum grande empreendimento, ou nenhum grande projeto terceirizado que os sustente, O mérito é deles. Do talento, mas acima de tudo do suor e de suas persistências. O que me faz ter a certeza que a estrada trilhada por eles está cada vez maior e mais estruturada.

Recomendo a audição completa do 3º disco. Porque entendo que uma faixa vai integrando na outra, cada uma vai se ressignificando. Lá vem a morte, a primeira faixa se faz presente ao longo do disco e tenho certeza que quem a houve no início, quando chega no final, tem outra impressão, lhe dá um novo significado. A totalidade do que traz o terceiro disco demonstra o cuidado e o primor com a produção e finalização de " Lá vem a morte".

A aura da banda reflete luz e boas energias que impressiona!

*  Explico: fui polpada por um colega, que se negou a me denunciar para a diretora, durante a brincadeira do corredor polonês.

Disco novo "Lá vem a morte!




quarta-feira, 24 de maio de 2017

Baleia Azul 1ª parte



O projeto Multimídia, Se Orienta, trabalhando com o aparelho de telefone celular como recurso pedagógico, traz hoje o vídeo experimental feito a partir de uma Roda de Conversa com alunas e alunos do 9º ano, sobre o tema Jogo da Baleia Azul, automutilação e suicídio.  Hoje vai ao ar a 1ª parte do vídeo, oportunidade para conhecermos o universo dos adolescentes no mundo atual> Na próxima quarta-feira(31), postaremos a 2ª parte da Roda de Conversa, em que os próprios adolescentes sugerem formas de enfrentar tal problema.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Nenhum direito a menos

Artigo publicado no jornal O Popular, edição de hoje!

Greve Geral Internacional das Mulheres


Artigo de opinião publicado no jornal Diário da Manhã, do dia 09 de março de 2017.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O Bom Pastor

Nasci, cresci e professo a fé Católica. Difícil admitir isto já adulta, depois das experiências acadêmicas e do mundo,  quando todos os dogmas são questionados  e nos vemos descrentes. Tive, no entanto, na minha adolescência e juventude a sorte de conhecer e conviver com pessoas que professavam uma  Igreja de gente. Sim de gente! De gente que convive e acolhe todo o tipo de gente. Pessoas que de fato, fizeram opção pelos pobres, pelos marginalizados, pelos excluídos.

Cresci assistindo e participando de encontros que rezavam e cantavam e praticavam a fé através da luta. Nunca vou me esquecer do VI Encontro Eclesial de Base, que aconteceu em Trindade, no ano de 1986. Convidada por um amigo e professor, Virgílio, que cuidava de toda a estrutura do Som, sai de Goiânia direto para o ginásio de Trindade, onde acontecia o encontro e encontravam centenas de pessoas, de todo o Brasil, reunidos para refletir sobre com o tema: Cebs, povo de Deus em busca da terra prometida. Foi lá que comecei a me interessar pelo movimento dos Sem Terra. Homens e mulheres, agricultores davam significado ao seu culto através de suas ferramentas de trabalho, de sua música, de sua vestimenta, de seus instrumentos. Quanta alegria, quanta esperança juntas! Misturados com eles, padres, bispos, muita gente que eu só conhecia pelas leituras feitas. Lembro-me que diante da multidão, buscar lugar privilegiado para poder ver e ouvir Leonardo Boff, D. Pedro Casaldáliga, Frei Betto, D. Tomás, D. Antônio.

Hoje, quando estive na Catedral para prestar minhas homenagens a este homem que aprendi a respeitar, vendo tantas pessoas, de tantos lugares, uns de igreja, outros da universidade,  do trabalho, de movimentos sociais, uns gente boa, outros nem tanto, percebi que D. Antônio, mesmo tendo renunciado ao cargo de arcebispo de Goiânia há 15 anos, fez história e está presente. Foi o bom pastor que guiou e cuidou de suas ovelhas com sabedoria, amor e humildade. Era visível nos olhares consternados, na reverência, na tristeza de cada um que se aproximava do corpo para fazer sua oração e despedir, o pesar e o sentimento de que alguém muito querido estava partindo.

Tive a certeza que mais que acreditar na fé invisível e na promessa do reino dos céus, o que me faz continuar firme nas minhas convicções cristãs, são os exemplos de homens e mulheres que abdicam de si para viver pelos outros com a honestidade da alma, sem usar do status para usufruir de poder. Dom Antônio, conhecido como o Conciliador, o profeta da Bengala(referência objeto que usava, pela sequela que tinha na perna, consequência de um acidente), aquele que tinha como lema a unidade, a união da igreja,  que esteve no Concílio II e  fez a opção pelos pobres, que semeou e que soube agregar, somar na diversidade. Pessoas assim, são imprescindíveis, pois nos ensinam a ter fé na vida.

O bom pastor fez sua passagem e deixou órfãos centenas de pessoas que tinham nele o exemplo a ser seguido. D. Antônio certamente vive! Viva D. Antônio!

PS.: Pedi a amiga Antonieta De Sant'anna a permissão para ilustrar o texto com esta foto feita por ela, tão simbólica: D. Tomás Balduíno, D. Pedro Casaldáliga, D. Antônio e monge Felipe Ledet. Os profetas da Esperança!!!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A violência no contexto escolar

O artigo abaixo, foi escrito em parceria com a deputada Adriana Accorsi para o I Colóquio Internacional de Bullying Submerso, promovido pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, no ano de 2015. Uma reflexão sobre este sério problema que está presente no universo das escolas brasileiras.






A Violência no Contexto Escolar

Adriana Sauthier Accorsi[1]
Geralda Cunha Teixeira Ferraz
[2]


Introdução:
Levantamento feito pelo movimento Todos Pela Educação (TPE) revelou que, em 2013, o Brasil tinha 93,6% da população na faixa etária entre 4 e 17 anos cursando a Educação Básica. Esse é um indicador que aponta para o alcance do objetivo principal, a inserção de todas as crianças, adolescentes e jovens na Escola. O dado também expõe a proporção e a gravidade da violência no ambiente escolar brasileiro.
A experiência no mundo das delegacias, principalmente na que atua com a proteção da criança e do adolescente, revela a dura realidade do contexto escolar atual: a violência dentro da escola. Quais são os motivos do comportamento violento de tantos estudantes num ambiente educacional?  
Partindo do conceito de Paulo Freire, que define escola como um lugar de gente, de se criar laços, fazer amizades, de conviver, pressupõe-se que antes de ser um espaço de aprendizagem e trocas de experiências, a escola é um local onde as relações interpessoais poderiam acontecer de forma harmônica, baseada no diálogo, na comunicação e na superação de conflitos. Nesta vertente, Paulo Freire faz um convite para pensar um projeto político pedagógico centrado na construção de uma escola “séria, competente, justa,
alegre, curiosa (1991, p. 42), uma escola em que todos tenham condições de aprender e de criar, de arriscar-se, de perguntar, de crescer”




Por outro lado, a realidade tem demonstrado que a escola deixou de ser um lugar de convivência e busca de conhecimento, para ser um espaço de pouco diálogo, da intolerância e do desrespeito, marcado por atitudes de agressão de todos os modos e de todos os lados. Tais manifestações, de acordo com o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, da OMS, caracterizam-se como atos de violência (OMS, 2002).
Uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.

            Em artigo científico Rosa (2010) explica que a violência nas escolas é vista como uma questão multicausal e que demanda análises mais aprofundadas.
… justamente por sua complexidade e multiplicidade de facetas que a compreensão  do fenômeno das violências nas escolas impõe o desafio de uma ótica transdisciplinar, multidimensional e pluricausal.

            Se o objetivo central proposto hoje pelo Estado é de que todas as pessoas em idade escolar tenha acesso às escolas, é preciso estar atento a ao desafio da superação da violência no contexto escolar, o que certamente afeta sobremaneira a presença e a convivência saudável das crianças, adolescentes e jovens neste ambiente e fora dele. Não basta que todos estejam na escola, é preciso usar o espaço da escola para uma convivência saudável.

1. A escola é o reflexo privilegiado do todo social é o espelho onde tudo se projeta
A sociedade vivencia o fenômeno social assustador da violência. Ela está presente em todos os espaços sociais, de modo crescente. De acordo com pesquisa da Unesco/BID (2002), devido  à generalização do fenômeno da violência não existem mais grupos sociais protegidos, diferentemente de outros momentos históricos, mesmo que alguns tenham mais condições de buscar proteção institucional e individual. Isso demonstra que atualmente a violência não se restringe a determinados nichos sociais, raciais, econômicos e/ou geográficos. Deste modo, também está presente no ambiente escolar, com intensidade e freqüência preocupantes.
No âmbito da Segurança Pública, mais especificamente na defesa e proteção às crianças e adolescentes, a violência escolar é recorrente, tanto no que diz respeito ao trabalho policial investigativo, quanto em relação aos pedidos de ajuda oriundos das escolas, por meio dos professores, coordenadores e do grupo gestor, na expectativa de que a Polícia dê conta do problema.  Infelizmente a comunidade escolar, principalmente na rede pública de ensino, vive um clima permanente de insegurança e medo, uma vez que é no seu espaço que muitos dos problemas extramuros chegam a seu ápice.
Ao retratar essa realidade, Mirian Abramovay e Maria José Rua (2003) destacam que são muitos os tipos de violência analisados e considerados comuns.  De acordo com as autoras,  na literatura americana  que discorre sobre o tema, o olhar recai sobre gangues, xenofobia e bullying. Já na Europa, os pesquisadores têm se dedicado ao estudo das incivilidades no meio escolar e referem-se a delitos contra objetos e propriedades, intimidades físicas, descuido com o asseio das áreas coletivas e ostentação de símbolos de violência, adoção de atitudes a provocar medos e alguns atos ilícitos como porte e consumo de drogas. ( 2003, p.23)
No Brasil, a partir da década de 1980, Abramovay e Rua destacam que as pesquisas desenvolvidas sobre violência nas escolas tiveram como referência as instituições públicas de educação, associações e, em menor número, instituições privadas. Mesmo sendo incipientes, por focarem na grande maioria situações regionais ou localizadas, os resultados obtidos apontam que, na década de 80, os principais tipos de violência eram ações contra o patrimônio e agressões interpessoais. Na década de 90 aumenta a preocupação com a violência no âmbito escolar com ênfase na presença do narcotráfico, na exclusão social e na presença de gangues. Novamente, percebe-se que o problema da desigualdade social integra as causas da violência escolar no nosso país.
Minayo (2013) diz que os atos de violência podem ser reconhecidos em quatro modalidades de expressão, denominadas de abusos ou maus-tratos. São elas: física, psicológica, sexual e envolvendo negligência, abandono ou privação de cuidados.
O contato do policial em seu trabalho investigativo com crianças, adolescentes e suas famílias explicita as modalidades descritas por Minayo, como conseqüências de problemas anteriores. Assim, durante investigações nos espaços escolares, se chega a mesma conclusão. A violência escolar é, na verdade, um grito de socorro de crianças, adolescentes e jovens e até mesmo de adultos, que clamam por ajuda em razão de não identificarem e/ou não saberem expor suas dores, que na maioria das vezes têm suas raízes em problemas familiares, extramuros.
Em Goiânia, a Polícia Civil, a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar mantêm programas preventivos destinados às crianças, adolescentes e jovens. O programa Escola Sem Drogas da Polícia Civil tem como público, alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, são adolescentes entre 12 e 18 anos. Em 2012, com 19 anos de atuação, o programa tinha alcançado mais de 232 mil alunos. Já o programa Anjos da Guarda, criado no ano de 2013, alcança crianças de 4 até 12 anos incompletos. Em pouco mais de um ano, mais de seis mil crianças e alunos foram atendidas.
Qual o objetivo de instituições da Segurança Pública em realizar trabalhos preventivos acerca das drogas com crianças, adolescentes e jovens? A prevenção é uma das saídas para que essas pessoas não se voltem para o mundo marginal, tornando-se, no futuro, alvo de repressão da polícia.  
Nenhuma pesquisa foi realizada sobre esses programas preventivos, que explicite quais são as principais queixas dos educadores, quando reivindicam a presença policial nas escolas, mas policiais, guardas civis e demais educadores envolvidos nos respectivos programas são unânimes em afirmar que é recorrente as solicitações virem acompanhadas de reclamações em relação ao comportamento violento dos alunos.  Geralmente, os relatos dizem respeito a alunos indisciplinados com históricos de envolvimento com drogas e famílias desestruturadas.





A escola é o espaço em que as crianças, adolescentes e jovens vão buscar conhecimentos, sobretudo é o espaço em que se aprende a conviver, baseado nos princípios trazidos da casa, construídos na família. Diante das mudanças sociais que vivemos e da falta de políticas públicas que possibilitem condições dignas de vida às famílias empobrecidas, todo o descontrole e a falta de princípios familiares e valores humanos, também se refletem na escola.
Para Rosa, a falta de políticas públicas agrava tais manifestações.

 “Fatores de desigualdade social como a  miséria, o desemprego, a falta de oportunidades para os jovens e a presença insuficiente ou inadequada do Estado fazem aumentar as manifestações de violência no país. Entretanto, não se trata de um fenômeno circunscrito a fatores estruturais de ordem sócio-econômica. Em razão disso, a violência deve ser entendida no âmbito cultural e psicossocial dos indivíduos, dos grupos e da sociedade. Enquanto Instituição, a escola, sofre os reflexos dos fatores de violência externos que têm gerado conflitos manifestados dentro da sala de aula, comprometendo o aprendizado e as relações interpessoais’’. (2010,p.148)

O fenômeno da violência na escola é o reflexo do que as crianças, adolescentes e jovens vivem em suas famílias. A falta de princípios, de limites, de perspectivas de futuro, o culto ao descartável, a inversão entre do ser pelo ter são elementos que colaboram para que a violência também seja institucionalizada e banalizada no universo escolar. A jornalista Bárbara Reis, em editoral para a publicação Público (2015), traduz bem esta realidade: “ a escola é o reflexo privilegiado do todo social é o espelho onde tudo se projeta, sem hipótese de fuga à realidade por mais cruel e inconveniente que seja essa exposição”.
Para Abramovay e Rua (2002),  todas as causas expostas acima, que provocam a violência nas escolas,  são conhecidas como variáveis endógenas e exógenas,  aspectos relativos tanto ao interior quanto ao exterior das escolas.
Entre os aspectos externos ou variáveis exógenas estão questões de gênero, relações étnico raciais, situações familiares, influência dos meios de comunicação e o espaço social das escolas (o bairro, a sociedade) (p.24).




Já entre os aspectos internos ou variáveis endógenas, considera-se a idade, a série e/ou o nível de escolaridade dos estudantes; as regras e a disciplina dos projetos pedagógicos das escolas, assim como o impacto do sistema de punições; o comportamento dos professores em relação aos alunos e prática educacional em geral.
Abramovay e Rua (2002) acreditam que a tendência sobre os estudos da violência escolar é no sentido de identificar variáveis ou fatores relacionados, pois não é possível ser um único fator, a possível causa ou antecedente que a potencializa. Prefere-se identificar conjuntos ou ambientes favoráveis a violência (p.25).
Por isso, além de enfoques multidimensionais, as autoras acima defendem, a importância de abordagem transdisciplinar, com a contribuição da sociologia, da ciência política, da psicologia, das ciências da educação e da justiça criminal. Elas acreditam ser consenso o reconhecimento da vulnerabilidade negativa da escola, diante de distintos processos contemporâneos, em particular as exclusões sociais, a atitude do poder público para com a educação e a perda de prestígio e de poder aquisitivo pelos professores.  Tal vulnerabilidade sustenta a perda da legitimidade como lugar de produção e transmissão de saberes. De acordo com as autoras,  embora os fatores externos tenham impacto e influência sobre a violência escolar, é preciso tomar cuidado com o fato de que, dentro da própria escola, existem possibilidades de lidar com as diferentes modalidades de violência e de construir culturas alternativas pela paz, adotando estratégias  e capital da própria escola.
As possibilidades da construção de culturas alternativas pela Paz existem e no Brasil muitas delas têm se consolidado, a partir dos mecanismos de defesa dos direitos, previstos na Constituição Federal de 1988, conhecida como Constituição Cidadã. A universalização da Educação Infantil, que possibilita as crianças de 0 a 5 anos estarem matriculadas em Centros Municipais de Educação;  a lei que torna obrigatório o ensino da história dos




nossos ancestrais indígenas e africanos, possibilitando os alunos a conhecerem sua própria história e colaborando no debate contra a discriminação e o racismo; e a democratização do processo de escolha dos gestores escolares, são ações efetivadas a partir da Carta Magna que possibilitam enxergar uma luz no fim do túnel e acreditar em um espaço escolar mais humano, menos violento.
Carvalho (2002) porém, critica os valores do capitalismo na perspectiva de aquisição da cidadania:
“Que o mal que atrasa o avanço democrático através da cidadania são os reflexos adquiridos pelos valores do capitalismo, sobretudo a cultura consumista, que reivindica uma desigualdade vazia e abstrata em detrimento da desigualdade social de fato. Esse fato agregado à incapacidade do sistema representativo de produzir resultados que impliquem na redução da desigualdade solidifica a sociedade brasileira divida conforme a educação, a renda e cor”. (p.229)
Significa dizer que, ainda que haja alguns mecanismos previstos na Constituição na perspectiva de atuar, para que a violência no âmbito escolar seja instinto, ou pelo menos tenha mecanismo para trabalhar tal fenômeno, sem políticas que impliquem na redução da desigualdade social, os conflitos e a violência escolar permanecerão.
 Mesmo que a violência escolar tenha causas diversas, não se pode perder de vista, a necessidade de pensar e construir alternativas para uma cultura de paz nas escolas; tal medida requer um esforço coletivo a começar do poder público, assumindo seu papel em proporcionar  aos estudantes e suas famílias condições dignas de vida e de formação educacional. Desta forma, será possível pensar a redução da desigualdade social, conforme reflete Carvalho (2002) ao entender que a cidadania perpassa pela aquisição de uma vida digna, com moradia, saúde, trabalho e educação. E só então uma nova realidade se refletirá em crianças, adolescentes e jovens mais saudáveis e menos desestruturados, o que certamente refletirá positivamente no ambiente escolar e na superação da violência.



As iniciativas criadas por este Brasil afora vindas de todas as partes, com o objetivo de colaborar na formação desta nova geração, buscando prevenir, e levando a possibilidade de uma vida com qualidade, longe de tudo que lembre e gere sofrimento, injustiça, morte, são bem-vindas e colaboram para um trabalho com maior alcance do poder público.
            Iniciativas como os programas preventivos Anjos da Guarda, Escola sem Drogas, Proerd, podem significar para as famílias, para os educadores, mas fundamentalmente para as crianças, adolescentes e jovens a possibilidade de uma vida sem violência, pautada no respeito às diferenças, no amor entre as pessoas.       
            Finalmente explicitar as várias formas da violência escolar e em que circunstâncias ela ocorre, é um primeiro passo para repensar as instituições sociais, o modelo de sociedade em que as crianças, adolescentes e jovens estão sendo educados ou des-educados, bem como a qualidade dos serviços realizados pelo poder público.  É possível que ao dar o primeiro passo, também dê início a superação do fenômeno da violência escolar.















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS     

  1. Freire, Paulo. A Educação na Cidade. São Paulo: Editora Cortez, 1991.
  2. Reis, Bárbara. Editorial da revista Público, disponível no site www.publico.pt, abril de 2015.
  3. Carvalho, José Murilo. Cidadania no Brasil,  Ed. Saraiva, 2014.  
  4. Revista Ciência e Saúde Coletiva. Publicação de pesquisa de alunos de pós-graduação da UEFS:  O perfil da violência contra crianças e adolescentes, segundo os Conselhos Tutelares. Universidade Estadual de Feira de Santana.  Feira de Santana, 2007.
  5. Klasura Fabiane; Inês Maria. Universidade Federal de Santa Catarina. Artigo científico: O impacto da violência doméstica contra crianças e adolescentes na vida e na aprendizagem. UFSC,  2006.
  6. Dados disponíveis no site: www.todospelaeducacao.org.br/sala-de-imprensa/releases/32460/brasil-tem-936-das-criancas-e-jovens-de-4-a-17-anos-na-escola/, 2013.
  7. Rosa, Maria José Araujo.  Artigo publicado pela Itabaiana: GEPIADDE. Violência no ambiente escolar: Refletindo sobre as conseqüências para o processo ensino. Ano 4, Volume 8, jul-dez de 2010.
  8. Minayo, Maria Cecília de Souza. Relatório - Impactos da Violência na Saúde. Conceitos, teorias e tipologias de violência: a violência faz mal à saúde , 2013.
  9. Abramovay , Mirian; Ruas, Maria das Graças.Violência na Escola. UNESCO, REDE PITÁGORAS, 2002.





[1]  Adriana Sauthier Accorsi é deputada estadual, delegada de polícia, especialista em segurança pública e ciências criminais
[2]  Geralda Cunha Teixeira Ferraz é assessora de comunicação, especialista em comunicação pública e assessoria de comunicação e escrivã de polícia